10/03/2016

Na rota para o necrotério

Diz-se aos ventos que se uma ambulância, em alta velocidade na estrada, de repente desliga a sirene, significa que o paciente a bordo morreu. Você já deve ter ouvido falar disso. Provavelmente também já viu alguma viatura da ambulância, correndo pela rua em meio aos carros, com a sirene desligada. Essa ambulância carregava um cadáver que não conseguiu chegar a tempo vivo no hospital, morto durante o trajeto.

A lógica é essa: se o paciente faleceu, não há urgência em chegar ao hospital. Logo, a sirene é desligada. Pensava eu que minha destreza racional seria tão infalível quanto a lógica apresentada na sentença anterior.

No dia em que minha mente era mergulhada em doses colossais de compostos etílicos, as imprevisíveis consequências passaram-se desapercebidas. Totalmente afetado, meu sistema nervoso central era uma entidade paralela coexistindo em meu corpo, não mais obedecendo às ordens das sinapses destruídas do meu cérebro.

Devo justificar-me, contudo, que não sou e nunca fui um alcoólatra. Meus passos trôpegos e minha mente entorpecida foram resultados de uma série de episódios que julgo ser válido usá-las como pretexto para esse fatídico dia.

A recém morte do meu pai havia me arrasado, de tal modo que nunca havia sentido antes. Descobri um afeto e admiração por ele nunca antes expressada por mim. Esses sentimentos reprimidos me criaram uma profunda angústia e remorso por nunca tê-los deixado conscientemente chegar aos seus ouvidos. Tal mágoa corroeu-se a tal ponto que nem mesmo as correntes do tempo a curaram. Meu espírito começou a ser tragado por ter perdido para a eternidade a chance de dizer pela primeira vez "eu te amo" para meu ascendente paterno.

Os dias de trabalho tornaram-se mais difíceis, minha produtividade em declive, minhas contas em ascensão, meu relacionamento oscilante.

A fim de evitar prolongamentos: eu comecei a beber antes do serviço, no horário de almoço, depois do serviço, e constantemente aos finais de semana. Após uma sucessão de crises, minha namorada me deixou. O que já deixava meu emocional fora do eixo agora definitivamente o expulsava de sua órbita ao redor dos perímetros da minha sanidade, e minha fraqueza agora já manifestava-se como apoio o consumo excessivo de álcool.

Eu estava na rota direta para o precipício.

O fatídico dia era numa Quinta-Feira. No dia em que eu deveria, rotineiramente cumprir, como até então cumpria, minha ida e volta ao trabalho conforme minha escala de horário, fora pela primeira vez quebrada. Eu saí de casa, e não desci no ponto do meu local de trabalho. Minha mente já não estava sóbria, mesmo sem nenhum álcool ainda em meu organismo. Ela pairava além dos limites da capacidade cognitiva de um ser senciente e são, sem nenhuma base racional ou emocional para se sustentar da lógica, do pensamento crítico ou analítico. Eu apenas estava seguindo o caminho do meu próprio desespero.

Noto então, agora, que eu não estava na rota direta para o precipício. Eu já havia caído nele.

Encontrava-me, portanto, - no horário onde supostamente eu deveria estar entrando pelas portas do prédio do meu trabalho - nas ruas da cidade onde os bares são preenchidos a noite pelas almas perturbadas de corpos sórdidos que vagueiam por lá, em busca dos destilados que preenchem a vilania de seus demônios. Entrei no primeiro botequim e pedi minha primeira cerveja, com a falsa pretensão ilusória de que minha vida estaria ótima e repleta de motivos para comemorações.

Em poucos minutos eu me encontrava na terceira long neck, ingerindo-a ininterruptamente, recostado ao balcão do bar, como se eu fizesse dali minha própria balada pessoal durante pleno dia ensolarado de uma quinta feira. Eu conversava com o barman, com os transeuntes que passavam em frente e com os ocasionais clientes daquele estabelecimento. Não me lembro se foi a partir da sexta ou sétima garrafa que minha memória começou a falhar. Minha tolerância para o álcool sempre foi muito alta, portanto ainda me recordo decidir-me que cerveja não era o suficiente. Solicitei ao barman uma dose pura de cachaça do centro-oeste, e prontamente fui atendimento, tão rápido quanto virei o primeiro copo. Os dois outros copos foram consumidos na mesma velocidade. E após estes minha memória é um eclipse de tonalidade negra imensurável.

Acordei deitado na calçada cerca de três horas depois, tempo grande o suficiente para que desse grande margem de imaginação para o que pudesse ter acontecido durante essa lacuna de amnésia. Não sei se de fato dormi, ou se meu cérebro apenas havia recuperado parte de sua sobriedade. Não sabia onde estava. Ainda era de dia. Minha embriaguez não passara. Meu abalado emocional solicitava mais álcool. E assim eu o fiz.

Minhas próximas memórias são difusas e confusas. Eu lembro que brigava com uma mulher desconhecida por não notar em mim enquanto passava, ameaçando enforcá-la com gestos enquanto uma mão segurava um copo com um líquido marrom-glacê (conhaque, provavelmente). Lembro-me de tentar chamar cachorros na praça para beijá-los. Também me recordo de beber um copo d´água, porém a esse ponto o céu perdia sua cor azul e era abraçado pela pretidão cósmica.

É difícil descrever cronologicamente os eventos deste dia. Peculiar dia em que senti o amargo gosto dos meus sentidos serem nocauteados pelo excesso alcoólico, até não restar nada exceto total escuridão. A noite, eu ainda estava rua, em becos desconhecidos, abordando estranhos, sendo abordado por estranhos, ameaçando e vagando cambaleante para os confins da minha perdição, enquanto meu corpo lutava por um resquício de funcionalidade para me manter vivo.

Meu consumo de cerveja, destilados e sabe lá mais o que - durante este fatídico dia inteiro - não apenas me direcionou diretamente aos trilhos da minha condenação. As paredes do precipício já haviam sido rompidas, e a queda se encontrava ainda mais funda, além dos limites do abismo.

Eu estava na rota direta para o necrotério, sendo carregado dentro de meu caixão, para o despejo final do meu corpo desfalecido e minha fétida alma, com rins e fígado putrefatos, decompostos de dentro pra fora devido a minhas pútridas ações enquanto vivo. Tomei consciência disso quando me descobri estar dentro de um lugar fechado, deitado sob uma prancha rígida, cercado de aparelhos e pessoas ao meu redor, enquanto o ambiente cambaleava em adição à minha própria visão turva e confusa. Meus sentidos não funcionavam, meu cérebro sentia os ecos de uma dor indescritível, eu não conseguia enxergar em cores, e meu corpo clamava por misericórdia. Eu agonizava em cada centímetro da minha existência física.

Como eu fui parar lá ainda continua um mistério. Quem chamou a ambulância talvez nunca saberei.

Eu ouvia vozes de humanos tentando me manter vivo. Eu senti o cheiro do meu próprio sangue. Eu ouvi os ecos insuportáveis de uma bigorna em minhas orelhas, a condenação pelos meus atos percorrendo todas as minhas entranhas. Eu pude sentir minha respiração voltar a funcionar após experimentar o vácuo da inexistência, enquanto a ambulância movimentava-se por estradas desconhecidas rumo ao meu túmulo. Eu, contudo, não pude ouvir uma sirene ligada. Fui somente atingido pela lucidez na minha consciência ao ouvir, com meus sentidos ainda debilitados, uma voz feminina gritando para o motorista "Ligue a sirene de volta, ele tá vivo!".

Eu soube que, a partir deste momento, eu senti o gosto da morte que infringi a meu próprio organismo, por pura e simples irresponsabilidade inconsequente. Não há outra justificativa aqui.

Acordei no hospital, mais de doze horas depois. Eu não quis saber dos detalhes, Eu não sei exatamente o que aconteceu comigo. Assim que me senti melhor, dispensei explicações das enfermeiras e dos médicos e dirigi-me diretamente para minha casa. Eu tinha tido um happy hour e tanto.

Racionalizando sobre este fatídico dia, não sei o que isso me trouxe, exceto a consciência da amargura e do arrependimento, e de conhecer de perto a rota direta para a minha própria cova. Agora, apenas sei que nunca mais repetirei isso. Provavelmente não precisarei mais. Provavelmente eu não serei demitido, depois de ter faltado para ir afogar minhas amarguras internas. Provavelmente você já viu alguma viatura da ambulância, correndo pela rua em meio aos carros, com a sirene desligada. Provavelmente era eu que estava lá.