23/02/2018

Rolês na periferia desse FDS

Confira abaixo a lista para os rolês, bailes, festas e baladinhas mais transadas da periferia para esse seu final de semana não passar na lamúria:

Baile eclético da Família Potranca, Rua da Lama, número 80
Horário: a partir das 21h

Nem só de funk vive a comunidade. Reggae, samba, forró, sertanejo, pagode, MPB, eletrônica, e muito mais, tudo pelas mãos do DJ Josival, cunhado do Danilzo Potranca. No fundo do quintal, passando pela casa da vó da Silmara, o baile será regado a iluminação de danceteria, com muitas bebidas que poderão ser consumidas a vontade e gente fingindo que sabe dançar.

Baile funk do Zézão, na esquina da Rua Garoto Pretinho com a Rua da Barraquinha
Forma de pagamento: bebidas alcoólicas, entorpecentes ilegais, sexo oral ou anal
Horário: a partir das 14h até ás 05h, ou até quando a última garrafa de energético acabar e ninguém mais tiver dinheiro

Happy hour ao ar livre, perfeito para ir com os amigos. Vizinhos talvez possam se incomodar com o barulho, porém não precisa se preocupar com a polícia interrompendo a festança, lá a ausência do Estado pode te deixar tranquilo! E mesmo se vierem, não saia correndo: os donos da festa farão questão de conversar com os policias e garantirem que não incomodarão mais. Baile regado à muita vodka barata, refrigerante para misturar com Dolly, catuaba, vinho de cinco reais, tudo isso acompanhado de belas porções de erva natural para relaxar os nervos!

E atenção: A partir da 00h iniciará a competição de fuga da Rota. Os traficantes da boca irão disparar alguns tiros e esperar a chegada da tropa. Quem ser capturado por último ganha a fiança.

Rolêzão na Praça da Cagada, em frente ao Departamento De Saneamento Urbano
Horário: a partir das 15h até ás 22h, porque os pais não deixaram passar disso

Encontrão dos jovens em meio aos arbustos secos e a grama alta não cortada da Praça da Cagada. Bebidas, cantadas, músicas no celular, tédio e muita conversa. Depois do anoitecer, trechos escuros da praça mal iluminada podem servir para casais românticos aproveitarem um momento de muita beijação. DST opcional.

Aniversário da Jandira, Rua da Lascívia, número 47
Horário: a partir das 17h30

Comemorando 50 anos, dona Jandira vai garantir nesse sabadão uma festança com muito bolo, beijinho, brigadeiro, coxinha fria da padaria, refrigerante quente e sem gás, gente feia, música ruim em uma caixa de som estourada, criança barulhenta, Skol congelada, criança traquineira estourando balão com o espetinho da linguiça, gritaria, e uma puta festa de família pra tu não ficar de fora!

08/02/2018

Transcritos aleatórios 2

 Eu não acho que a falta de significado seja desalentadora ou aterrorizante como muitos acreditam. O que é o significado? Temos esse desejo impulsivo de atrelar razão à tudo, dar ao universo e à nossa existência um significado especial, como se fôssemos dignos de tal. Eu não vejo como isso pode ser mais ilusório.

 Eu acho muito mais atraente o fato de sermos o resultado de um processo aleatório e fortuito de milhões de anos, que nos trouxe até aqui por meio da pura sorte. Isso assusta os mais crédulos, os crentes, pois os joga para um vazio onde não há um conforto emocional de acreditar que fazem parte de algo maior, de que tudo acontece por um motivo. Ser fruto de uma lenta evolução de milhões de anos, sem um criador superpoderoso? Nós nos recusamos em aceitar essa perspectiva, é absolutamente horrenda. Mesmo para os mais céticos, a princípio essa ideia também o é.

 Mas, abandonando a superstição e o pensamento místico, aceitar a nossa existência como um mero acaso, desprovido de significado especial no contexto do cosmos, é um ato de extrema humildade, grandeza e transformação. É como ir para um retiro espiritual no meio da floresta e se deparar com uma realidade que, longe de qualquer crença ou dogma, acalenta e engrandece a mente com uma perspectiva estarrecedora.

 É surpreendente e encantador poder enxergar o nosso parentesco evolutivo com todos os seres vivos do planeta, vislumbrar o panorama do universo e os átomos que de dentro das estrelas nos originam, aceitar a nossa profunda conexão com o cosmos e, ainda sim, sem precisar recorrer á qualquer tipo de busca de significado especial para a nossa existência que fuja da conexão com a realidade. Essa, pra mim, é uma perspectiva muito mais fascinante e prazerosa.

 ***

 Eu me pergunto o que será desse blog quando eu morrer. Será que meus parentes o lerão com um misto de vergonha, risadas e encantamento? Se estão chorando: me desculpa. Eu sei que muitos dos textos aqui são apenas vergonhosos pra cacete. E olha que eu apaguei muitos deles. Esse blog é como um diário online, um registro de ideias que qualquer um pode ler. Será que ele servirá como recordação à minha vida, à minha personalidade? E se eles estiverem lendo isso exatamente quando eu já estiver morto? Estarão chorando, rindo, os dois? É certamente uma ideia interessante.

 Eu tenho muitas ideias interessantes. Eu só tenho preguiça de desenvolvê-las. Por exemplo: uma vez pensei num filme que se chamasse "A Volta Dos Que Foram Mas Não Voltaram". Sobre o que é? Eu não faço a menor ideia! Espero que eu consiga desenvolver o enredo antes de morrer.

31/01/2018

A Lei da Diminuição do Lanche

 Após a reinauguração de uma hamburgueria perto de casa, em um espaço maior e mais modernizado, eu notei que o meu lanche preferido tinha sofrido uma alteração: Ele costumava ser maior. Todos os ingredientes continuavam lá: a gorgonzola, o molho especial, o cheddar e o saboroso hambúrguer artesanal por entre o pão australiano. O pão e o hambúrguer, entretanto, pareciam menores, e os demais ingredientes pareciam ter sofrido uma pequena diminuição em sua quantidade. O preço talvez continuasse o mesmo, eu não lembrava a quantia original. Eu notei, portanto, que eu havia sido vítima dos efeitos implacáveis e dolorosos da impiedosa Lei da Diminuição do Lanche.

 A "Lei da diminuição do lanche" é um fenômeno de alteração no tamanho, qualidade e/ou preço de produtos alimentícios vendidos por novos estabelecimentos com o passar do tempo. Uma hamburgueria artesanal recém inaugurada, a fim de impressionar os primeiros clientes, irá produzir e vender lanches com a qualidade e preço mais satisfatórios possível, tendo em mente também a competição no mercado.

 Em caso de prosperidade do negócio, a hamburgueria acata mais custos, com mais funcionários, mais e melhores equipamentos, e possivelmente até a construção ou reforma para aumentar o local do estabelecimento. Isso, em ultimato, gera uma necessidade de maior renda para equilibrar os gastos extras, levando a um impacto direto no tamanho, qualidade e preço dos produtos, acarretando assim a diminuição do lanche. A hamburgueria então diminui, por exemplo, o lanche de R$25: o hambúrguer passa de 200g pra 180g, ou reduz-se a quantia de seus demais ingredientes, ou o tamanho do pão (ou uma combinação de todos eles). O preço pode continuar o mesmo ou subir. Em alguns casos o preço pode subir enquanto o lanche se mantém igual.

 Em caso de dificuldades financeiras, o lanche pode sofrer sua diminuição, porém o preço sofre nenhuma ou pouca alteração, podendo até mais barato para tentar competir com o mercado.

 O fator da diminuição do lanche encontra um momento de estagnação ou pouca flutuação enquanto o estabelecimento se encontra em situação comercial estável, mantendo um produto satisfatório e conseguindo um bom equilíbrio entre custo, renda e boa satisfação dos clientes - há menos que o estabelecimento decida aumentar a proporção dos lucros em relação aos custos, acarretando mais uma vez na diminuição do lanche. Os perigos de diminuir o lanche visando maior margem de lucros é a perda da clientela para estabelecimentos concorrentes. Em alguns casos, a diminuição do lanche e a alteração de seu preço podem ser impactantes a ponto de gerar críticas negativas. Dependendo da severidade e quantidade de críticas, o estabelecimento pode se ver pressionado a baixar os preços e/ou a aumentar a qualidade dos lanches, até novamente alcançar um equilíbrio.

 A tendência da relação de diminuição do lanche e alteração de seu preço quase nunca são proporcionais. Antes um lanche de R$25 podia ter 2 hambúrgueres de 200g, meia folha de alface, 2 pequenas rodelas de tomate, 2 pedaços de cheddar, 1 colher de chá de maionese caseira e uma pitada de molho especial. Conforme a Lei da diminuição do lanche, esse lanche pode sofrer a diminuição de seus 2 hambúrgueres de 200g pra 180g e 1 pedaço de cheddar, a diminuição do diâmetro e espessura da massa do pão e ingredientes mais restritos ou baratos para o molho especial. O preço, no entanto, pode continuar o mesmo, abaixar muito pouco em proporção à diminuição do lanche ou até mesmo aumentar, seguindo uma proporção inversa.

 Observação importante: a diminuição do lanche, conforme já descrito, não envolve só o tamanho e preço, mas também a qualidade dos ingredientes, as vezes sendo substituídos por quantidades menores, marcas ou métodos de produção inferiores e mais baratos. Igualmente importante observar também que A Lei da Diminuição do Lanche não se aplica só a lanches. Refrigerantes, sucos, bolachas, cervejas, assim como a indústria alimentícia como um todo (e não só ela) sofrem os efeitos dessa Lei. Outro dia um vendedor de doces do prédio onde trabalho anunciou-me, muito espertamente só após eu pegar uma caixa de seus brigadeiros de churros, o seu aumento de 10 para 12 reais. Mais uma vez a Lei da Diminuição do Lanche furtivamente me atacou de surpresa com todo o seu implacável golpe de descontentamento. E o próximo pode ser você.

25/01/2018

As quatro covas

 Os postes iluminavam escassamente o cemitério. Jânio cavava quatro covas por entre as folhas secas de Outono. O vento era tão gelado quanto sua alma. O ano era 1897, embora não se tenha certeza disso.

 Trabalhava sempre no período da madrugada. O cemitério não era murado, no entanto a cidade era tranquila, então ser zelador não era uma tarefa difícil - embora um ou outro bêbado ou cachorro aparecessem de repente e o assustasse. De qualquer forma, havia sempre ali em seu posto de descanso o mini rifle, carregado e funcionando.

 Os mortos não o incomodavam. Jânio enterrara tantos corpos que já se sentia como cada um deles, ali residindo logo abaixo. Alguns lhe eram conhecidos, e sentia-se emocionalmente íntimo a todos, conectado com a morte como um senhor da necromancia. De certa forma gostava dessa vida mórbida, era diferente.

 Após oito dias, cavando durante a madrugada, Jânio cavava o quarto e último túmulo, sozinho e com apenas uma enxada. Estava exausto. Sua idade avançada já não o permitia o mesmo alento de outrora. Sim, a verba municipal era ridícula, e para encurtar a história, acabou sobrando para ele abrir buracos na terra durante seu turno.

 Quem morreu? Foi vingança, doença, acidente? A vida podia acabar de formas inusitadas. Escutando apenas o dançar das árvores e a sinfonia da quietude contrastando com o atrito de sua enxada na terra, um novo elemento se adicionou à orquestra em seus ouvidos. Como estava dentro da sepultura, não podia visualizar quem se aproximava.

 Antes de finalmente subir de volta à superfície, um estrondo forte e alto irrompeu sobre o paralelepípedo, e Jânio assustado recuou por alguns segundos, antes de enfim saltar da cova. Sem ter tempo de terminar de subir, vislumbrou o terror a meros dez passos a sua frente. Três cadáveres desfalecidos aos pés de um desconhecido de aparência esquelética e fantasmagórica, de sobretudo e chapéu de aba pretos. O breu era fortalecido pelas lâmpadas incandescentes, que sombreavam a face do indivíduo em pé.
 - Quem é você?! - indagou Jânio.
 - Eu trouxe os corpos - de voz rasgada, arrastada e rouca, o desconhecido apontou para os cadáveres jogados ao chão. Jânio, incrédulo e pensativo, não respondeu de imediato.
 - Olha só parceiro, leve esses bonecos embora daqui porque eu tenho mais o que fazer. Vamos! Eu vou ter que pegar minha arma?

 A enigmática figura riu em desdém diante da ameaça:
 - Você não pode me matar - Jânio deu de costas, em direção ao seu posto de descanso:
 - Vamos ver quanto a isso.

 Antes mesmo de sair de dentro do posto, ecoou pela penumbra sepulcral do cemitério o ranger da arma engatilhando de Jânio, que se revelou já com o desconhecido em mira.
 - Esses são corpos reais? - ele perguntou, em tom intimador tentando mostrar confiança, embora assustado.
 - Você pode ter a certeza absoluta que sim.
 Jânio analisou os corpos, ainda com a arma em mira, consternado e com um semblante de repulsa e raiva.
 - Vire-se. Vire-se, caramba! Eu vou te levar agora mesmo para a delegacia. Vamos, desgraçado!
 Mas o desconhecido continuava imóvel, com um débil e arrogante sorriso no seu rosto pálido.
 - Por que você vai me levar até lá?
 - Você matou eles, seu assassino de merda! Não foi?! - explodiu Jânio, aumentando o tom de voz - dê meia-volta e coloca as mãos na cabeça ou eu te mato também! Eu cavei quatro covas essa semana e você vai preencher a última!
 O estranho continuou relutante, obstinado em sua posição como uma pedra. Novamente deu sua sutil gargalhada de desdém.
 - Me desculpa, Jânio. Os três corpos que eu trouxe foram justamente para essas covas. A última certamente não é minha.
 - É mesmo, palhaço?! Vamos descobrir. - e Jânio, com a adrenalina pulsando em seu corpo como um gorila raivoso, subiu o mini rifle à altura dos olhos e, com o alvo fixado, tentou pressionar o dedo indicador no gatilho. A paisagem turvou em sua visão, e ele perdeu o equilíbrio como se uma estranha força subitamente tivesse sugado toda sua energia vital. Sua pressão arterial desabou, as mãos encharcadas de suor frio não mais tiveram apoio para continuar segurando a arma e Jânio caiu em seguida, pressionando com uma das mãos sobre o peito acima do coração, onde uma lancinante dor de uma parada cardiorrespiratória rasgava todo o seu corpo.

 Sua consciência estava a beira do colapso e seus olhos capturavam uma sombra desfocada que se aproximava lentamente. O desconhecido então se agachou à seu lado.
 - A última cova é sua, Jânio. É hora de ir agora. - disse afavelmente enquanto fechou os olhos de Jânio e acariciou sua cabeça grisalha, que ainda tentava em vão lutar por um suspiro de postergação ao fim da vida.

 O desconhecido se levantou e tirou seu chapéu de aba preto, revelando a verdadeira face da morte, e segurando-o ao peitoral como um símbolo de luto.
 - Você nunca devia ter feito tanto esforço cavando essas covas, Jânio. Olha o que fez com você.