15/01/2013

O ceifador


 Maíra acordara cedo naquela manhã de Domingo. Era a voz serena de Izrael, seu irmão caçula de 6 anos, sutilmente se aproximando de sua cama, que a desperta. Não era apenas mais um sonho, era de fato ele. A garotinha ruiva de 9 anos já expressava um contagiante sorriso e euforia. Há muito que os dois não se viam. A última vez que se encontraram foi há um bom tempo, em um bonito e grande campo, com gramas aparadas, flores em abundância, além de placas de pedras estranhas por todos os lados, fixadas em pé sobre a terra. Maíra não entendia bem o que aquilo era.

 E era para esse campo onde Izrael iria levá-la. "Por que vamos pra lá?". Seu irmão retruca "Porque é lá onde estou morando agora". Finalmente iriam brincar, ser irmãos juntos novamente e matarem a saudade, assim pensava Maíra. Era um grande presente de aniversário pra ela.

 Os pais de garota não estavam de acordo em deixá-la ir para aquele local. Rejeitaram tal ideia após Maíra perguntar pela permissão deles. O pai temia que isso já começasse a ser sinal de insanidade. Diante da rejeição deles Izrael prontamente acalmou seus pais. Como ainda eram sete da manhã de Domingo, ambos os pais tinham acabado de acordar. Izrael gentilmente os colocou para dormir. Por um bom tempo. Sem que eles o vissem, claro. Não queria causar nenhum choque após tanto tempo se verem. Maíra não entendeu o que acontecera, mas seu irmão o assegurou que eles se reencontrariam. Em breve.

 Acompanhada por seu irmão, Maíra foi guiada por ele até o campo. Enquanto andavam, Maíra se dirigia a ele de forma contagiante. "Sabia que eu sonho direto com você, irmãozinho?" "Eu sei". To tão feliz de te ver de novo, Izrael, dizia Maíra. Ele retrucava de forma pouco amistosa. "Por que estamos indo praquele parque?". "Não é um parque, é um lugar pras pessoas descansarem e terem paz", explica o irmão. Ainda não estava claro para ela, mas estava contente e animada. Estava matando a saudade. "Você fará 10 anos amanhã, certo?". Sim, responde Maíra. Ótimo, ainda há tempo, dizia ele para si mesmo.

 A caminhada debaixo do banho de sol daquela manhã de céu limpo não impediu os dois de chegarem ao local, com pedras cravadas em pé por todo o lugar. Maíra ainda não saiba muito bem o que estaria fazendo lá. Izrael mandou-a deitar. "Vamos descansar um pouco aqui". Descansar? Maíra pensara que iam brincar. Relutante, ela se levanta, mas ele a derruba com hostilidade. "Descanse!", ele ordena. Maíra fecha os olhos, amedrontada. "E agora?", pergunta Maíra. Antes que pudesse esperar por uma resposta, a garota ruiva sente uma agonizante dor no peito, arregalando os olhos e berrando em sofrimento. Sua visão turva vê Izrael, com um sorriso maléfico, cravando uma faca com marcas de sangue nela.

 "Eu estava com saudades, então vim te buscar, irmãzinha" dizia enquanto ela adentrava o outro lado. "E desculpa pela faca suja, eu não tive tempo de limpar após colocar seus pais pra dormir também. Bem vinda ao meu lado, Maíra, agora vamos ficar juntos! Você, eu, a mãe e o pai!" Assim discursava Izrael. Ele se levanta, após ter cumprido o seu objetivo. Em um dia em que não se foi morta apenas a saudade, ele segue rumo de volta á sua pedra, onde esculpida nela dizia a frase "Que descanse em paz eternamente no reinado de Deus, Izrael."