07/01/2015

Kayke Rockstar

"Quem é o próximo?" perguntou o diabo, com sua voz rasgante e grave, em um tom nada amigável.

"Sou eu, senhor."

O diabo, com um sorriso sarcástico no rosto, mediu o corpo esguio e frágil do rapaz. Ambos entram no escritório do príncipe das trevas.

"Kayke Brito, né? Você que marcou hora comigo, docinho?"

"Sim, senhor, diabo."

"Sente-se, seja CALOROSAMENTE bem vindo" imediatamente rindo satanicamente após proclamar tal estúpida aneodota.

Kayke expressou um leve riso de incômodo. Com as fichas em mãos, o diabo repousa seu tridente sob as paredes em chamas de sua sala infernal, com uma expressão imutável de sarcasmo em seu rosco diabólico.

"Aqui diz que você deseja se tornar uma celebridade, um famoso, e que me veio procurar para que eu lhe conceda este... favor."

"S-sim, senhor, diabo."

"Desculpa, você está confortável? Quer que eu aumente o ar condicionado?" gargalhando de imediato, fitando seus olhos de sarcasmo nos de Kayke. "Ou você tá com frio? Quer que eu acenda a lareira?" explodindo em risos novamente.

"Piada boa... Então... o que você tem para me oferecer, garoto?

Kayke suspira e, visivelmente desconfortado, começa:
"Sabe, senhor..."

"Diabo, por favor."

"Como?"

"Tenho muitos nomes, não me chame de senhor. Pode me chamar de Diabo, Demônio, Belzebu, Belial, Capeta, Capiroto, Cramunhão, Coisa Ruim, Lúcifer, Leviatã, Mefisto, Mefistófeles, Tinhoso, Satã, Satanás... como quiser, eu tenho inúmeros nomes e representações. Enfim... o que você tem a  oferecer?"

"Eu... eu queria muito fazer sucesso, ter dinheiro e fama, e eu acho que você é a melhor opção pra fazer isso acontecer, senhor... Diabo Demônio Belzebu Belial Capeta Capiroto Cramunhão Coisa Ruim Lúcifer Leviatã Mefisto Mefistófeles Tinhoso Satã Satanás."

A face antes sarcástica agora dera lugar a um puro sentimento de desprezo pela alma ingênua que sentava em sua poltrona demoníaca. Kayke permanece sem reação, enquanto o progressivo desprezo do diabo permeia a sala. Ele ajeita sua gola e coloca as mãos em seu tridente.

"E o que você tem para me oferecer?"

Kayke desesperadamente tenta prosseguir sua argumentação.

"É difícil tentar ser um famoso sem o apoio da mídia, da imprensa... o que eu to querendo dizer... é difícil ser independente nesse meio, é tão competitivo..."

"Cara..." interrompe o diabo, impaciente. "Você... por que você não procura um emprego e para de encher meu saco satânico?"

"É que eu fui demitido..."

"Ai meu tridente... e você pede socorre á mim pra resolver a tua vida de merda? Sem nem ao menos ter algo para negociar?"

Kayke se revolta, porém segurando parcela do que sente.

"Qualé seu capeta, eu desci todo o caminho até aqui. Eu não vou levar nada?"

O diabo exala uma de suas entusiásticas e quentes risadas, que fez Kayke sentir seu bafo infernal do outro lado da escrivaninha do Excelentíssimo Capeta.

"Sabe o que tu vai levar daqui, Kayke? Uma chifrada do capeta no olho. E meio metro de tridente no rabo"

Em poucos segundos, seu sarcasmo se transformara em apatia.

"O que eu posso lhe dar? 15 anos de vida, uma alma, um bode, uma virgem?"

O diabo, dessa vez, apenas expira uma risada de desdém, já impaciente e mau humorado.

"Você vai ter que ser mais criativo que isso..."

Um breve silêncio se instala, e o diabo expira uma breve risada novamente.

"Eu sou um homem de negócios. Eu tenho os melhores advogados e empresários aqui, trabalhando pra mim. Eu sou uma força da natureza. Eu não perco meu tempo com gente como você. Eu sou o rei do inferno, aqui eu faço bolo sem precisar de forno, cara."

"Se você é um homem de negócios, o que você precisa pra me tornar um rockstar?" disse Kayke, abalado, embora ainda persistente.

"Rockstar? Ainda existe essa babaquice? O que você é, um vocalista de boy band? Esse seu cabelo não me engana, moleque... você é daqueles que usa o microfone pra cantar e depois pra socar no brioco? Ein? Haha... Eu conheço esse tipo... existem muito deles aqui no meu reino, garoto."

O diabo estava com a tão costumeira face sarcástica novamente, se deleitando na arte de rebaixar os outros moralmente.

Relutante, Kayke ainda tenta contra-argumentar em prol de convencer o diabo:
 "Na verdade, eu queria formar uma banda de heavy metal. Eu só preciso de sua garantia que dará certo."

 O semblante diabólico do Senhor Belzebu transfigurou-se inteiramente, como de total desdém, passasse para um súbito interesse pelo garoto.

 "Heavy metal, hãm?" disse o diabo. "Você tá zoando com a minha cara?"

 "Não, cara, eu quero ter uma banda de metal"

 "Sabe, eu já tive uma banda de metal antes..." falou o diabo, como se repente quisesse puxar assunto. "Mas eu abandonei aquela banda, cara... os caras eram otários, não tinham o espírito rock 'n' roll. Um virou cristão e o outro começou a virar fã de Avenged Sevenfold... aí não dá né, eu caí fora. Eu conheço um espírito rock 'n' roll quando vejo um... eu criei o Ozzy Osbourne, porra. Eu também criei o Marilyn Manson, e me desculpo por isso, mas... era tão bom ter uma banda de metal. Viajar o mundo, espalhando a palavra. Parece que essa essência se perdeu..." o diabo fez uma pausa dramática e prosseguiu: "Você tem o espírito rock 'n' roll, Kayke Brito?"

 "Sim, eu tenho!" respondeu o Kayke, segurando sua euforia e poupando suas palavras para que não acabasse falando besteira.

 "Eu não estou convencido."

 "Eu tenho o verdadeiro espírito rock 'n' roll do diabo em minhas artérias!" liberando toda a sua energia para fora dos pulmões.

 "Eu não estou convencido!" gritou o diabo. Sua sala já fora dominada por uma vibrante sensação de rock 'n' roll pulsando por entre as flamas queimantes daquele inferno.

 "Eu tenho o espírito rock 'n' roll concedido pelo diabo e quero ter uma banda de metal de sucesso concedida pelo próprio diabo!!!!!" a sala então estrondou em um barulho infernal de guitarras diabólicas, e tanto Kayke quanto o diabo explodiram em contentamento e se cumprimentaram com um forte aperto de mão satânico.

 A celebração continuou ao fundo, com as guitarras diabólicas e as baterias insanas incendiando a aura infernal do diabo, que propôs: "Eu lhe concedo a banda, mas eu terei que participar dela. Eu posso ficar no baixo, mas eu queria usar umas letras minhas também!"

 "Com certeza", sem hesitar disse Kayke.

 O diabo sorriu de felicidade, abriu a gaveta de sua escrivaninha e, com seu tridente, perfurou um tipo de papel e o jogou sobre a mesa.

 "Assine esta merda de contrato, que juntos teremos nossa própria banda de heavy metal com o verdadeiro espírito do metal. Tome esta agulha, despeje um pouco de seu sangue sobre a parte sublinhada. Agora, se me permite, senhor Kayke, com licença que eu tenho mais clientes pra apresentá-los ao tridente. Vamos ensaiar assim que possível. Mal posso esperar para tocar em uma banda de heavy metal novamente!!!!"

"Muito obrigado, senhor Diabo Demônio Belzebu Belial Capeta Capiroto Cramunhão Coisa Ruim Lúcifer Leviatã Mefisto Mefistófeles Tinhoso Satã Satanás."

O diabo, acompanhando Kayke até a saída, seu futuro companheiro de uma nova banda de metal, bateu em suas costas em um gesto amigável:

"Por você favor, me chame só de Levi"