09/05/2011

Lotado e vazio

 Acordar 6 horas da manhã, pegar o ônibus lotado. De estômago vazio. Ir até o ponto final, descer e pegar o metrô. Seu bilhete único está vazio. O recarrega. Adentra o metrô e segue até a estação final. Lotado. Você chega no trabalho, é repreendido ignorantemente pelo chefe. Senta-se no computador, lotado de ofensas em seus pensamentos, e xingamentos em português, aramaico, eslovaco e romeno. Lotado de serviço á fazer. E com um pouco de procrastinação, o faz.

 Hora do almoço, come até ficar lotado. Volta ao trabalho. Poucos minutos depois, os efeitos merdamorfósicos da refeição começam a borbulhar em seu intestino, em estágio final de mutação. Dirige-se rapidamente - ao mesmo tempo que sutilmente - ao toalete. O serviço está feito. O seu intestino está vazio. Mas a privada lotada.

 Retorna ao seu computador, novamente lotado de tarefas. Aproveita para conferir seus créditos do cartão. Vazio. Quieto e observador, na esperança de ninguém no casulo do estrume. Lotado. Expediente finalizado. Sua mente predomina o vazio. Por enquanto. Hora de retornar ao lar. O metrô chega. Novamente, lotado. Um milagre. Um banco. Vazio. Nada mais confortante do que saber que irá para casa sentado a viagem toda. Mas ainda resta o ônibus. E ele está lotado novamente. Não interessa, são 15 minutos de viagem a pé.

 Desce em seu ponto, chega em casa. Checa seus envelopes. Luz de conta, água, telefone e televisão. Que ainda não pagou. Lotado de contas atrasadas. Vazio na conta bancária.