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24/11/2020

Era pra ter sido uma vida feliz

Eu tive uma vida boa, mas não fui feliz. 

Não sei em que momento descobri que não era verdade. De que bastava eu estudar, me dedicar no trabalho, ser um marido amoroso, acreditar em mim mesmo, e buscar fazer do mundo um lugar melhor. Já na pré-adolescência eu não me via motivado pra nada. O misto de auto cobrança e procrastinação foi desastroso. Tive um emprego entediante, que eu nunca amei, porém estável e que me permitiu sobreviver. Fui casado por 34 anos e fiz de tudo pra tentar ser um bom marido, mas fui um incompetente em todos os sentidos.

Nunca fui bom em conseguir ser bom em nada. Ainda na infância me lembro de ter chorado porque não conseguia decorar o alfabeto. Demorei pra conseguir aprender a amarrar meus próprios cadarços. Tentei ser escritor, mas não tinha criatividade pra escrever sem no final acabar imitando o que já tinha lido. Tentei ser um bom estudante, mas tudo parecia ser sempre mais difícil pra mim do que pros outros. Minha memória sempre foi uma traiçoeira nefasta e me sabotou inúmeras boas oportunidades. Tentei ser um bom ator, mas jamais conseguia decorar bem minhas falas. Minha carreira jamais saiu dos primeiros degraus. Tentei ser um bom filho e amigo, mas tratei todos com frieza e distância e provavelmente magoei e decepcionei muito mais gente do que jamais poderia recompensar. Vivi com culpa e remorso após a morte de entes queridos por não ter sido melhor pra eles. Vivi com culpa e remorso por ter sido uma pessoa desprezível a vida inteira e só ter notado isso tarde demais.

Preciso ser justo também. Tive uma vida boa e privilegiada. Se eu colocar em perspectiva, tive acesso ao que a maioria não teve. Talvez se eu tivesse batalhas mais difíceis pra lutar eu poderia ter sido mais humilde. Mais humano. Ainda sim drenei minha atenção à inseguranças e neuroticismos. Não aproveitei pequenos e grandes momentos de felicidade da qual tive oportunidade. Essas experiências externas de prazer foram diminuídas pela agonia interior fabricada pelo próprio ego. Encolhidas pelas angústias ilusórias de uma mente danificada e auto sabotadora.

Era pra ter sido uma vida feliz. Não sei porque, só queria acreditar que deveria. Mas fui me provando errado a cada tentativa. Nenhuma terapia adiantou. Me vi velho, aposentado, ainda preso aos mesmos erros, aos mesmos vícios e aos mesmos hábitos. Eles me mantiveram prisioneiros de suas fabricações por todo o tempo.

Hoje eu só consigo acreditar que não nasci pra viver uma vida feliz. Nem sequer que nasci pra viver. Talvez eu troquei algumas fantasias por outras. Mas os sonhos foram virando pesadelos. A euforia sempre foi dando lugar ao torpor. No fim restou a decomposição de um projeto de vida. A sombra do que foi antes uma faísca de explosões carregadas de energia. Um voltar ao esquecimento, ao escuro eterno, de onde não deveria ter saído. A única oportunidade de ter uma experiência única no universo valeu a pena? Não estar morto por um brevíssimo período de tempo na escala cosmológica foi um erro? Eu queria estar dando aqui meu testemunho final, de amor e esperança, de expressar gratidão e saudade, amor e compaixão. E, no entanto, esse é meu testemunho final. Uma mente que só alimenta planos que se tornam frustrações é dona de toda a angústia do mundo.

06/08/2018

O lado oculto de Xuihoctl

 Nos confins de uma galáxia extremamente longínqua, o planeta Xuihoctl orbita uma débil e tímida anã vermelha chamada Nhgasuz, estrela de pequena massa e tamanho muito reduzido.

A mesma face de Xuihoctl está sempre virada para Nhgasuz enquanto a orbita, devido à sua proximidade com a estrela. Assim, esse lado é incessantemente bombardeado pela cataclísmica emissão eletromagnética de Nhgasuz, condenando-o a uma eterna e brilhante fornalha estéril e desolada. Contrastante a isso, o lado oposto do planeta é envolto em perpétua escuridão, nunca jamais tendo sido agraciado pela luz forjada na serena nucleossíntese da anã vermelha. O lado oculto de Xuihoctl é igualmente desolado, abandonado em uma cegueira hedionda que recebe apenas o abraço penumbral de um firmamento inacabável, onde estrelas não brilham. Isso se deve ao fato do planeta ocupar uma posição peculiar nas moradas de sua galáxia.

 O sistema de Nhgasuz habita recônditos remotos e segredados da borda de sua galáxia, logo antes dela se dispersar em um insondável oceano de eterna solidão cósmica sem estrelas. Esse sistema pode ser considerado o último da galáxia, o vizinho estelar mais longínquo. Pode-se concluir também que essa estrela e seus planetas são os vizinhos mais próximos do vazio e incalculável abismo do cosmos entre o fim de uma galáxia e o início da próxima.

 Isso não é tudo. A órbita de Xuihoctl ao redor da estrela é praticamente vertical em relação ao plano galáctico. O eixo de rotação do planeta também é extremamente inclinado, fazendo com que ele orbite Nhgasuz deitado, de forma parecida à Urano. Isso resulta com que seu macabro lado oculto jamais contenha um céu para que, de sua superfície, sejam avistados os acenos de outros corpos siderais intragalaticos além, com exceção dos raros e fantasmagóricos brilhos de luzes estelares distantes nas extremidades horizontais, que não são capazes de iluminar a noite eterna desse anômalo lado oculto de Xuihoctl.

 Xuihoctl não tem lua, e não se conhece outros planetas em seu sistema. A estrela vizinha mais próxima talvez ronde há mais de 230 anos luz. O planeta tem uma estrela só pra si, e os dois erram solitários pelas bordas externas da galáxia, mais rápidos que qualquer outra estrela.

 Na vasta extensão probabilística de um interminável universo, há de se imaginar a mais exótica das configurações possíveis para a existência de um objeto celestial, com as mais excêntricas características. Nenhuma mente sadia jamais ousou conceder, contudo, a inexplicável e horrenda existência de Xuihoctl e suas peculiares características físicas.

 Até a descoberta desse corpo rochoso amaldiçoado foi de natureza estapafúrdia, uma vez que ele não foi descoberto de modo algum. Sua existência foi revelada de modo abrupto, capturada por telescópios que recebiam mensagens anormais vindas de sua direção, como um sistema que explode de repente com vida inteligente e implora por contato. Toda uma exaltação criada em torno dessa descoberta fantástica para descobrirmos, afinal, que sabemos menos do que imaginávamos. Uma luz misteriosa brilhou de forma breve em todo o espectro de emissão eletromagnética, vindo desse sistema anormal.

 Logo em seguida à esse esquisito evento, visões foram relatadas em pessoas ao redor de toda a Terra, descrevendo o caos instalado sob toda a superfície global de um planeta longínquo. O cenário era de um âmbar amarronzado obscuro, envolto em uma negritude total, apenas escassamente iluminado por uma débil estrela avermelhada. As imagens eram difusas, não se tinha uma perspectiva geral do contexto daquelas visões. O panorama era envolto em um insondável mistério, como se abraçado por uma intangível e nefasta entidade celestial, cuja constituição fora forjada nas brumas de uma malignidade cósmica. Uma extensa miríade grotesca de criaturas rastejantes foram relatadas, que propiciavam à essas alucinações visuais uma categoria além da simples esquisitice. Nessas mesmas epifanias também estavam incluídas paisagens cavernosas e desoladas, pertencentes à um mundo totalmente desconhecido, porém que tinha nome, assim como sua estrela. Quem os nomeou, não se sabe.

 Com os sinais captados pelo telescópio e os relatos, a suspeita era forte de que os dois eventos estavam conectados. O sistema de Nhgasuz foi alvo de tamanha atenção que observá-lo apenas por telescópios não era o suficiente. Em um ato que talvez tenha sido um erro indescritível da exploração espacial, sondas foram pra lá enviadas a fim de conhecer de perto esse estranho sistema, excêntrico e bizarro em toda a sua magnitude e que, além disso, transmitia de alguma forma suas paisagens assombrosas para a mente de pessoas aleatórias ao redor da Terra

 A realidade das visões relatadas foi confirmada pelas sondas quando lá pousaram alguns anos depois, nas áreas debilmente iluminadas pela estrela. Assim que as imagens foram transmitidas para a Terra, as primeiras a serem mostradas foram às pessoas que tiveram as visões. Todas entraram em um estado cacofônico de extrema insânia, como se a confirmação de suas visões engatilhasse uma faísca de delírio irrecuperável. As visões difusas de repente materializaram-se em uma fotografia repleta de contraste e nitidez, relevando todo o assombro e o pânico. Nenhuma dessas pessoas jamais voltou a respirar sem a ajuda de aparelhos.

 Aos demais desafortunados que puseram seus olhos nas imagens capturadas pelas sondas, apenas restam-nos torcer que algum dia se recuperem do desequilíbrio atordoador que os catapultou para fora de suas órbitas de sanidade, como um planeta errante que não gira ao redor de nenhuma estrela e não pertence à nenhuma galáxia. Quanto ao resto de nós, apenas esperamos que a nossa imaginação do terror, descrito por quem avistou a bizarria cósmica que emana daquele planeta, não seja o suficiente para que perdemos o controle de nossas faculdades mentais igual àqueles que avistaram a face de Xuihoctl.

 O que eles viram é em vão tentar descrever, uma vez que no ataque psicótico de suas pirações eternas e condenatórias ao total espanto, quase nenhum sobrou para que pudesse voltar ao cerne de suas almas e pintar para nós, de maneira confiável, o que foi registrado nas imagens. Aqueles que tentaram relatar caíram em um abismo ainda mais profundo de loucura, como se sugados por olhos negros abissais que espreitavam nas paredes cósmicas daquelas imagens misteriosas.

 Não se sabe como e nem por que houve esse repentino detectar simultâneo pelos telescópios da existência de Xuihoctl, seguido de visões ao redor do planeta inteiro. Especula-se uma força oculta por trás das bramas que compõem o tecido do espaço-tempo, que fabrica as propriedades do campo quântico cujos mistérios ainda mal compreendemos. Em nossa suprema ignorância, a nefastidão horrenda desse sistema pode ser apenas uma propriedade cósmica que ainda não tenhamos capacidade de vislumbrar. Ou, no recôndito abissal de nossos mais terríveis pesadelos, existam entidades que ajam alheias aos nosso delírios e receios, que consomem a energia do campo cósmico em suas fúrias aterrorizantes, cujas propriedades é impossível até de se teorizar.

 Talvez Xuihoctl seja a profana encarnação do próprio inferno, onde de acordo com os relatos, na escuridão perpétua de seu lado obscuro, emanações piroclásticas condenam à negritude daquele lugar medíocre à mais plena falta de misericórdia, onde seres rastejantes e reptiliformes trazem o horror e o caos à mente de quem os observa, aparentemente criados por deuses profanos com um distorcido senso de humor. A natureza desse sistema planetário é um mistério. O que propiciou o desenvolvimento dessas criaturas desgraçadas, condenadas eternamente a um tormento maldito, execradas de uma luz divina que a concedessem a glória de uma vida digna?

O sádico criador, se é que alguém pudesse ter tido a audácia e a malícia de conceder tal planeta, teria um senso de humor tão sórdido assim, agraciando-o com climas de natureza cataclísmica e inefável, castigando as almas soturnas daquele mundo maldito? Xuihoctl talvez fora uma conjuração metacosmica, sublimemente se apresentando como uma aberração planetária com seu show sinistro, construído pelas energias maléficas de um caos astronômico. Logo antes de uma vítima cair em um acesso espasmódico de gritos e pânico generalizado, seu relato incluía seres humanóides andando sem rumo naquelas terras longevas, com o semblante impresso em suas faces do mais puro desespero e desalento, como crianças buscando refúgio em um purgatório desalmado. Espécimes que se assemelhavam à humanos que já viveram, como se reencarnassem naquele planeta, condenados à rastejar como moribundos. Seres com a expressão de um completo sofrimento, de olhos totalmente escuros, como uma adaptação evolutiva para absorver o máximo possível da fraca claridade. Toda a sórdida forma de vida respirava naquela faixa debilmente iluminada do planeta, na transição entre a fornalha brilhosa da face sempre iluminada pela estrela e o lado eternamente enegrecido pela noite.

 Não se sabe mais nada a respeito do sistema de Nhgasuz, nem como ele surgiu, há quantos bilhões de anos existe, como aquelas exóticas formas de vida desenvolveram-se, nem o que significou todas essas visões. Seria um chamado? Um alerta? Um efeito quântico ainda desconhecido? A sonda perdeu contato após essas transmissões, por motivos misteriosos. As fotos sumiram. Não é possível confirmar a confiabilidade dos poucos relatos obtidos através das visões e das fotos. Mas o efeito do que foi mostrado desse planeta é real. Um pandemônio caótico se instalou na mente de quem teve seus olhos voltados para esse lugar herético. Após esses episódios de insânia, da qual um cético leitor custaria a acreditar, os telescópios não conseguiram mais detectar o planeta em nenhuma faixa do espectro eletromagnético, e tampouco sua estrela.

 Nenhum sistema planetário simplesmente desaparece sem deixar vestígios. Nenhuma nuvem molecular densa e escura tampouco foi detectada para que houvessem bloqueios na visualização do sistema pelos telescópios. Não se sabe o que aconteceu. Nenhuma explosão nas redondezas foi detectada. Esse súbito desaparecimento adiciona uma camada de mistério que ainda permanece indecifrável, arrepiando e amedrontando os sonhos até dos mais destemidos cosmólogos e astrofísicos do mundo inteiro.

 Nenhuma alucinação ou breves explosões de luz novas vindos deste sistema ocorreram desde então. No entanto, é de forte suspeita que o blasfemo sistema de Nhgasuz ainda exista de alguma forma, em algum lugar, viajando pelas bordas externas de sua galáxia em uma órbita solitária, carregando consigo seus pesadelos heréticos, suas respostas indecifráveis, a esgueirar cegamente na espreita infinita desse vasto universo de mistérios indizíveis.

 Anãs vermelhas são conhecidas por suas vidas tempestuosas. Por mais fracas e imperceptíveis que sejam na imaculada grandeza do universo, são instáveis e turbulentas, alternando entre longos períodos imperturbáveis e estrondos espontâneos de massa estelar, gerando ondas de calor insuportáveis em seu perímetro. Nos resta torcer e rezar, sob o conhecimento da existência desse hediondo sistema solar e seus planetas, para que a benevolência cósmica faça que Nhgasuz, sendo uma anã vermelha, expurgue em todo o seu esplendor uma apocaliptica ejeção destrutiva de energia e morte para o infame planeta.

 Xuihoctl foi apenas o primeiro planeta a ter sido testemunhado pela humanidade, que tomou conhecimento das carnais profanações a rastejar por sua superfície. Nenhuma alma plena de sua sanidade ousará imaginar se um dia Nghasuz voltará a se revelar novamente para nós, descortinando-se de seu véu de negritude e indetectabilidade para seduzir-nos novamente com seus convites sedutores à loucura e ao terror de seus enigmas e sua incógnita existência. Na vasta extensão probabilística de um interminável universo, nenhuma mente sadia tampouco jamais ousará conceder, neste amaldiçoado universo sem fim, se haverá mais destes a serem descobertos.

25/01/2018

As quatro covas

 Os postes iluminavam escassamente o cemitério. Jânio cavava quatro covas por entre as folhas secas de Outono. O vento era tão gelado quanto sua alma. O ano era 1897, embora não se tenha certeza disso.

 Trabalhava sempre no período da madrugada. O cemitério não era murado, no entanto a cidade era tranquila, então ser zelador não era uma tarefa difícil - embora um ou outro bêbado ou cachorro aparecessem de repente e o assustasse. De qualquer forma, havia sempre ali em seu posto de descanso o mini rifle, carregado e funcionando.

 Os mortos não o incomodavam. Jânio enterrara tantos corpos que já se sentia como cada um deles, ali residindo logo abaixo. Alguns lhe eram conhecidos, e sentia-se emocionalmente íntimo a todos, conectado com a morte como um senhor da necromancia. De certa forma gostava dessa vida mórbida, era diferente.

 Após oito dias, cavando durante a madrugada, Jânio cavava o quarto e último túmulo, sozinho e com apenas uma enxada. Estava exausto. Sua idade avançada já não o permitia o mesmo alento de outrora. Sim, a verba municipal era ridícula, e para encurtar a história, acabou sobrando para ele abrir buracos na terra durante seu turno.

 Quem morreu? Foi vingança, doença, acidente? A vida podia acabar de formas inusitadas. Escutando apenas o dançar das árvores e a sinfonia da quietude contrastando com o atrito de sua enxada na terra, um novo elemento se adicionou à orquestra em seus ouvidos. Como estava dentro da sepultura, não podia visualizar quem se aproximava.

 Antes de finalmente subir de volta à superfície, um estrondo forte e alto irrompeu sobre o paralelepípedo, e Jânio assustado recuou por alguns segundos, antes de enfim saltar da cova. Sem ter tempo de terminar de subir, vislumbrou o terror a meros dez passos a sua frente. Três cadáveres desfalecidos aos pés de um desconhecido de aparência esquelética e fantasmagórica, de sobretudo e chapéu de aba pretos. O breu era fortalecido pelas lâmpadas incandescentes, que sombreavam a face do indivíduo em pé.
 - Quem é você?! - indagou Jânio.
 - Eu trouxe os corpos - de voz rasgada, arrastada e rouca, o desconhecido apontou para os cadáveres jogados ao chão. Jânio, incrédulo e pensativo, não respondeu de imediato.
 - Olha só parceiro, leve esses bonecos embora daqui porque eu tenho mais o que fazer. Vamos! Eu vou ter que pegar minha arma?

 A enigmática figura riu em desdém diante da ameaça:
 - Você não pode me matar - Jânio deu de costas, em direção ao seu posto de descanso:
 - Vamos ver quanto a isso.

 Antes mesmo de sair de dentro do posto, ecoou pela penumbra sepulcral do cemitério o ranger da arma engatilhando de Jânio, que se revelou já com o desconhecido em mira.
 - Esses são corpos reais? - ele perguntou, em tom intimador tentando mostrar confiança, embora assustado.
 - Você pode ter a certeza absoluta que sim.
 Jânio analisou os corpos, ainda com a arma em mira, consternado e com um semblante de repulsa e raiva.
 - Vire-se. Vire-se, caramba! Eu vou te levar agora mesmo para a delegacia. Vamos, desgraçado!
 Mas o desconhecido continuava imóvel, com um débil e arrogante sorriso no seu rosto pálido.
 - Por que você vai me levar até lá?
 - Você matou eles, seu assassino de merda! Não foi?! - explodiu Jânio, aumentando o tom de voz - dê meia-volta e coloca as mãos na cabeça ou eu te mato também! Eu cavei quatro covas essa semana e você vai preencher a última!
 O estranho continuou relutante, obstinado em sua posição como uma pedra. Novamente deu sua sutil gargalhada de desdém.
 - Me desculpa, Jânio. Os três corpos que eu trouxe foram justamente para essas covas. A última certamente não é minha.
 - É mesmo, palhaço?! Vamos descobrir. - e Jânio, com a adrenalina pulsando em seu corpo como um gorila raivoso, subiu o mini rifle à altura dos olhos e, com o alvo fixado, tentou pressionar o dedo indicador no gatilho. A paisagem turvou em sua visão, e ele perdeu o equilíbrio como se uma estranha força subitamente tivesse sugado toda sua energia vital. Sua pressão arterial desabou, as mãos encharcadas de suor frio não mais tiveram apoio para continuar segurando a arma e Jânio caiu em seguida, pressionando com uma das mãos sobre o peito acima do coração, onde uma lancinante dor de uma parada cardiorrespiratória rasgava todo o seu corpo.

 Sua consciência estava a beira do colapso e seus olhos capturavam uma sombra desfocada que se aproximava lentamente. O desconhecido então se agachou à seu lado.
 - A última cova é sua, Jânio. É hora de ir agora. - disse afavelmente enquanto fechou os olhos de Jânio e acariciou sua cabeça grisalha, que ainda tentava em vão lutar por um suspiro de postergação ao fim da vida.

 O desconhecido se levantou e tirou seu chapéu de aba preto, revelando a verdadeira face da morte, e segurando-o ao peitoral como um símbolo de luto.
 - Você nunca devia ter feito tanto esforço cavando essas covas, Jânio. Olha o que fez com você.

29/12/2017

Como o universo surgiu

 No total foram seis minutos de um enaltecido e eloquente palavrório do presidente da Comissão Cosmológica Interplanetária. A confiança estava alta. Foi de grande surpresa e jubilo, ainda assim, a aprovação do orçamento para o Mega Colisor Supersimétrico Planetário.

 Um projeto ambicioso, para dizer pouco. Passarem-se 59 anos até sua finalização e, estima-se, 87 mil pessoas envolvidas. Todos os assentamentos extra-solares participaram de sua construção, liderados pela União Federal Solar. No fim, o Mega Colisor era um anel com uma largura de milhares de metros, se estendendo pela superfície como um muro estratosférico ao redor dos quase 3 mil quilômetros de circunferência do planeta anão Ceres. Tinha uma capacidade superior a 1 trilhão de vezes a do LHC, e sua estrutura seria alimentada via conversão da energia geotérmica do planeta e também através da captura solar por usinas terrestres.

 Dezenas de séculos passaram-se de pesquisas, investigação científica e desenvolvimento tecnológico por uma espécie inquisitiva, curiosa e aventureira, que agora dava um novo passo rumo a resposta de uma importante questão primordial: como o universo surgiu? A colossal arma de investigação cosmológica fora testada de incontáveis maneiras até que o sinal verde acendeu para seu principal objetivo: emular a criação do cosmos e responder à pergunta primordial.

 Ceres estava em seu periélio e a energia solar capturada era mais intensa. O momento era perfeito. A simulação começara agitando flutuações quânticas na escala de Planck em seus anéis centrais. Os testes corriam bem, e fenômenos da gravidade quântica em loop foram observados no tecido cósmico, deformando as propriedades do campo eletromagnético no Mega Colisor e unificando as forças fundamentais da natureza. Partículas elementares e gluóns em forma de plasma iam preenchendo o supervácuo dos anéis supercondutores, criando uma singularidade espaço-temporal no reator ativo do Mega Colisor, corroborando modelos propostos pela teoria-M.

 Imensas quantidades de energia e calor resultantes desse processo incitavam dúvidas sobre a real capacidade de simular com eficiência a criação do universo. A emulação, contudo, ocorria com sucesso. Subpartículas desconhecidas eram detectadas pelos monitores enquanto bárions e léptons se chocavam em eventos cataclísmicos e densos ao redor do quilométrico colisor supersimétrico central, e partículas de interação fraca responsáveis pela energia escura criam um buraco negro prototípico primordial que começa a se expandir, dando início aos fenômenos da relatividade geral. Hadrons e quarks emergem e as forças da natureza se divergem, agindo sobre o campo bariônico nas fábricas do Mega Colisor, e o plasma de quarks e gluóns interage com bósons de Higgs e geram prôtons e nêutrons, iniciando a nucleossíntese primordial e competindo com a antimatéria, que se aniquilam mutualmente enquanto toda a energia escura e o buraco negro prototípico vorazmente sugam a força vital e a matéria do Mega Colisor, de Ceres e do próprio universo como um monstro hiperespacial faminto, catapultando uma súbita inflação cósmica e gerando um novo tecido espaço-temporal de um universo totalmente novo dentro de outro universo.

 Agora esse invasor extra sideral se alimenta das entranhas, como um parasita, do que um dia foi um cosmos intocável, avançando furtivamente e sugando toda a sua energia para alimentar sua própria. Ceres é destruído e em milissegundos todo o sistema solar é aniquilado, juntos com o Mega Colisor e a União Federal Solar, não restando sequer núcleos atômicos para sobreviver ao caos reinante desse tumor horripilante, engolindo o universo por dentro lentamente como um cadáver pútrido. Constelações e aglomerados inteiros de estrelas e nuvens moleculares são desmembrados, buracos negros e quasares, galáxias e superclusters galáticos caem juntos nesssa fenda abismal da inexistência sem qualquer resistência. Um universo inteiro em agonia é estripado e rasgado em seu cerne como um câncer, um corpo em decadência sendo digerido por dentro para a sua própria morte, não sobrando ninguém, em lugar nenhum, para saber o que de fato aconteceu e como o universo foi criado. Talvez, nesse novo universo, depois de 13 bilhões de anos uma espécie surja novamente para se perguntar, afinal, como o universo surgiu.

20/05/2016

Um conto intergalático

 Contemplo o céu âmbar no cume desse vale. O precipício apresenta-se diante de dois passos a minha frente, em sua descida de mais de dois mil metros. Eu visito essa galáxia longínqua, pousando na superfície rochosa de um de seus muitos bilhões de planetas.

 Um sentimento perscruta pela atmosfera rasa desse corpo celeste inóspito, com seus ventos intermináveis de uma fina cor sangrenta. Quão longe foi a distância que percorremos, em nossa audaciosa busca aventureira pelo desconhecido? Observávamos esse planeta, de longe. Ambiciosas foram as tentativas até aqui, e eis que me encontro sob essas formações geológicas de perto.

 Alvo de muito estudo científico, devido a indícios de presença biológica e - muito certamente - vida inteligente, piso na areia nunca antes sondada desse imenso globo errante. Quieto e intimidador, ouço seu uivo solitário nunca antes escutado por ninguém da nossa espécie.

 As finas e geladas nuvens assobiam e serpenteiam por sobre o solo, coloridas de tons que passeiam entre o laranja e o sépia. Sua estrela hospedeira me recebe com sua débil iluminação avermelhada, e mortalmente me amedronto. Contemplo o firmamento nublado por sobre o horizonte, com suas diferentes estrelas em diferentes posições. Elas me avisam da minha posição no cosmos. Não sou capaz de descrever ou compreender o que sinto. Invisível, impotente, aterrorizado, minúsculo. O negrume do enorme vácuo celestial me envolve com seu braço espiral galático e encaro a solidão. Um súbito pânico me petrifica, e cria-me o desejo de voltar de imediato. Este mesmo pavor me faz querer continuar investigando.

 Eu avanço, reflexivo, por sobre as regiões pedregulhosas desse vale, e suas montanhas me acenam ao longe na linha do horizonte. Paisagens desérticas se esticam para além da visão periférica e ruínas são encobertas por poeira, relatando um cenário apocalíptico. Sinto a necessidade de mostrar e relatar o que vejo, todavia vejo-me sozinho, andando por planícies despovoadas. Tudo parece apático, desocupado, abandonado. Nunca o sentimento de solidão foi-me tão intenso. Eu posso ouvir a minha circulação sanguínea, porém nenhum ruído de algum animal exótico distante nesse inerte panorama. Penso nas inimagináveis cenas do que pode ter acontecido no passado desse planeta.

 Subitamente, tudo parece... semelhante, como a face de um velho rosto amigo. Vejo traços no solo arenoso, ruínas e escombros de restos metálicos oxidados, materiais excêntricos que se assemelham à plásticos. Com espantosa admiração, olho os indícios do que poderia ter sido um dia atividades de alguma forma de vida inteligente. Eu vejo esqueletos, destroços de edificações ao longe, encobertos pela desertificação desse árido planeta morto, e então, em pavorosa assimilação concluí que, pelo o que observei, não havia mais nenhum deles aqui. Meu coração congela e em estado de frenesi fito sinais de antigas épocas, em um diferente planeta, da devastação infringida a uma espécie de vida tecnológica. Me é indecifrável conjecturar sobre como eles eram. Muito menos me é imaginável como esse planeta desértico e aparentemente hostil foi capaz de abrigar um dia seres vivos, e como trilhou seu caminho para o declínio até a total aniquilação da vida. Como eram esses seres vivos? Ainda em choque, sou incapaz de começar a imaginar.

 Conseguimos descobrir algumas coisa sobre eles, onde mais se concentravam demograficamente ou que tipo de elementos químicos mais produziam. Nunca pudemos descobrir, no entanto, como eram anatomicamente. Nenhuma espécie senciente e inteligente me apareceu à vista. Foram todos condenados ao extermínio eterno. Por explosões solares, meteoro, guerra nuclear?

 Posso somente supor. Em um exoplaneta obscuro, certo por nossa comunidade científica de que poderia conter vida inteligente, e até mesmo civilizações desenvolvidas, encontro-me apenas dominado por ambientes infernais, o que faz-me entrar em transe pelo assombro.  Por um instante sinto-me em meu próprio planeta, encarando o prefácio de andar por colinas inabitadas sob a extinção eterna de minha própria espécie. A distância imensurável entre este enigmático planeta e o meu parece inexistente e, de um instante para o outro, esse sentimento some. Sinto-me perdido novamente nessa praia intergalática.

 Observo os deteriorados vestígios materiais deixados por essa espécie falida, e domina-me um sentimento horroroso de melancolia. Durante anos observamos esse mundo longínquo de nosso planeta, avistando um débil e pálido reflexo azul, certos de que aqui poderíamos encontrar vida. Estávamos certos. Sinto-me deprimido, como alguém que chegou na cena de um crime sem ter conseguido impedir o assassinato. Estou diante de uma misteriosa cena de devastação que vitimizou a total existência da vida nesse planeta. Obrigo-me a reportar com pesar ao meu mundo que chegamos, portanto, tarde demais para contatar os habitantes deste planeta que, como soubemos, um dia o chamaram de "Terra".

17/05/2016

6 horas

 Saí do consultório petrificado. O médico apertou levemente meu ombro, desviou o olhar para baixo, inspirou e sentenciou minha sina. Estremeci. Comecei a ver a sombra. Voltei pra casa carregando o fardo de mil pensamentos simultâneos.

 Você já sentiu a senciência da morte? A lucidez de saber o cessar de suas atividades biológicas? Não falo de ser vítima de um assalto a mão armada, de saber que você pode morrer ao vacilo de qualquer movimento brusco. É saber que tudo a sua volta não mais será alvo de seus olhos. De que tudo irá embora.

 Voltei pra casa com sete dias restantes de vida. No primeiro dia, eu não pude pensar, não consegui falar. Meu médico ainda me ligaria no decorrer da semana. Disse-me que poderiam haver novidades em meus exames. Minhas emoções foram vazias, imersas em um puro fluído de reflexões sem objetivos que minha mente criou. Minha esposa dirigiu e chegamos em total silêncio e desolação.

 144 horas me restando de vida, acordei com a certeza de que eu não verei a próxima fase lunar, em breve eu não acordarei mais após um breve sono. O mês de Outubro será desconhecido, o planeta rotacionará sobre si sem a minha existência sobre sua superfície e as estrelas brilharão no céu mesmo em minha ausência.

 Ao saber que encontrava-me respirando no dia seguinte, tentava ainda tirar uma conclusão, chegar a um racional consenso, mas o que podia pensar? Minha morte me fora anunciada e eu ainda havia tanto o que fazer. Eu não sabia o que fazer, e não sabia o que saber. Olhei pela janela da minha residência onde moro, ao sul da região metropolitana. Os orvalhos se extinguirão para mim, pois nunca mais os verei, e soube que eu irei morrer. Eu olhei os quatro cantos da visão periférica e soube da fragilidade da existência, da minúscula significância do impacto de minha morte. Eu soube, assim como sei o meu nome, a minha jornada até aqui, a minha vida. Em breve não saberei mais. Tudo esvaecerá, em aproximadas 115 horas que ainda havia por viver.

 "Então eu tenho 115 horas. O que eu posso fazer?"

 Levantei-me depois, com surpreendente otimismo. Tomei meus remédios; meu médico ainda não ligara. A apreensão, contudo, estava inexistente. Eu não queria ficar inerte. Bebi um do meus últimos goles de água. Senti-me enjoado; eu estava com fome, porém sem apetite. Beijei minha esposa com a paixão fértil de um adolescente saudável. Ela me olhou com a dor de mil cátaros sendo apunhalados por inquisidores. Ela sente a agonia de carregar consigo o fardo premeditado da perda e da morte que a mim ei de ocorrer. Vê-la em seu interior, com seu sorriso pueril, porém sofrido, foi sentir o gosto do beijo da sombra que se aproximava de mim. Olha-la em seus olhos foi sofrer a perda não só dela, mas a de mim mesmo, de dizer adeus ao meu corpo, às minhas moléculas, ao caminho que percorremos juntos, tudo o que define o meu ser, minha individualidade, nossa vida e nosso matrimônio. Não consigo recordar de nenhum momento tão doloroso quanto esse, e foi com esse pesar do tamanho de montanhas que a abracei e permanecemos entrelaçados, silenciosos, ouvindo nosso batimentos cardíacos, por uma duração de tempo que me é impossível de mensurar.

 Por mim o anjo da morte poderia ter me levado naquele abraço acolhedor. As horas de vida restantes que meu médico proclamara seriam-me dispensáveis naquele ponto.

 Decidi antes do começo da tarde, sem nenhum propósito aparente, ir sozinho até o parque observar o lago e as gaivotas por uma última vez  Sentia-me ligeiramente débil, com uma crise de tosse insistente, contudo não contive-me. Eu senti os galhos e as folhas. Eu comprei meu último picolé. Não consegui saboreá-lo com vigor, infelizmente. Meu paladar estava fraco e minha arca dentária sensível.

 Não permaneci muito tempo lá no parque, no meu atual estado de saúde. Retornei para casa, admirei em esplendor a refração da luz solar por sobre o céu do globo terrestre, com suas camadas geomagnéticas e atmosféricas. Eu agradeci aos meus ancestrais sobreviventes de predadores naturais e aos meus antepassados que não foram extintos pela Peste Negra. Eu pude viver minha vida de forma esplendorosa graças aos descobridores do fogo e da penicilina. Eu senti a sombra, ainda distante, acenar para mim, sem pressa para chegar perto. Senti os esforços de meu organismo debilitado à caminho de casa, encontrando-me espiritualmente em paz. Meu tempo, no entanto, está no fim. Definitivamente.

 Meu médico não havia ligado ainda. Ele havia prometido... mas deve estar ocupado. Será que haviam encontrado algo em meus exames? E se...

 Sentei-me por algumas horas em minha cadeira reclinável, toquei meu clarinete empoeirado em tons soturnos e melódicos, e voltei a olhar por sobre a janela de meu quarto, com cerca de 106 em crédito de horas como ser vivo consciente.

 Fitei a curvatura da Terra. Observei as luzes que desvaeceram ao crepúsculo no pôr do Sol, e que trarão consigo o ceifador, que se esgueira pelas sombras, e essa sombra avança a cada minuto, assim como o dia dá lugar à noite. Exceto que a noite irá durar para sempre. Eu sinto essa sombra. A cada segundo, milimetricamente aproximando-se.

 Não lembro que horas dormi. Acordei no dia seguinte, para minha surpresa. Eu liguei para meus familiares, estes sem saber do meu breve período restante no cronômetro da existência física. Eu ri com a minha mãe, mesmo estando longe. Eu falei com meu pai, sem a coragem de me despedir, e sem a coragem de dizer o quanto ele fora meu herói. Eu senti seus contentamentos em receber uma ligação descompromissada do filho distante. Eu dizia adeus e chorava por dentro, e por fora eu apenas me comportava como se fosse passar o próximo Natal com eles. Tudo está indo embora, prestes a não mais existir por toda a eternidade. Os medicamentos me ajudam, e a sombra ainda parecia apenas um ponto ignóbil, mas na verdade ela esta mais próxima. A noite está chegando.

 Gargalhei pelos motivos mais estapafúrdios, das piadas mais grotescas e realizei as tarefas mais triviais para alguém que nunca mais irá testemunhar as belezas e misérias do mundo. Eu gostaria de ter rido mais, de ter chorado com mais frequência, sem medo. Senti meu sistema querendo encerrar suas atividades, apagar todas as minhas luzes e me hibernar-me para o resto da existência do tempo.

 Eu abracei novamente a minha esposa, sabendo que nunca mais sentirei em muito breve seu corpo novamente, ela nunca mais será por mim entrelaçada novamente. Eu poderia ter feito mais por ela? Eu poderia ter dito que a amava mais vezes. E por que não me criou a coragem logo sabendo do meu perecimento em tão pouco tempo? Meus diálogos acabarão, as cortinas encerrarão a minha peça. E não haverá reapresentação no próximo Natal. E eu a amara sem a menor hesitação, durante todo o tempo que passamos juntos. E eu sei que ela sempre soube disso.

 Abracei meu labrador de estimação, entregando-me aos prantos. Eu não conseguia parar diante da inevitável perda mútua, tanto minha quanto dele. Eu poderia tê-lo abraçado mais, e em breve nunca mais o farei. Ele sentirá minha falta? Ele não terá consciência da minha despedida eterna, em suas naturezas tão alheias à morte. Eu com certeza sentirei saudades dele. Eu sinto a sombra dando alguns passo em minha direção, taciturnamente por entre os pilares da fábrica da existência, prestes a agarrar os véus da negritude e me enrolar com eles.

 Eu adoraria ter ligado para amigos, tê-los em meus braços, beber uma última cerveja com eles. Foram todos embora, no entanto. As amizades foram sendo varridas como pó. Não tenho um velho companheiro para me despedir. Eu poderia ter cultivado mais amizades.

 Encontrei-me ainda vivo no quinto dia, com até talvez um cômico espanto. Agora sobram-me apenas dois dígitos de horas restantes.

 A morte pareceu uma ideia banal. Algo abstrato, que não irá acontecer. É como se eu quisesse que a sombra viesse logo. E ela estava mais perto, sim estava. Começava a sorrir timidamente para mim. O Sol já estava na linha do horizonte e a sombra trazia consigo as flâmulas negras ao meu encalço, e a cegueira havia por me atingir. Senti-me conectado ao mundo, porém fisicamente débil, prestes a ser abraço pelo mar da penumbra.

 Poderia ter dito que não morrerei. Eu poderia ter me convencido de uma mentira para me sentir melhor. E de fato tentei. Poderia ter pedido exames mais completos. Meu médico combinou-me de me ligar, e ainda nada. Ainda faltava um exame a ser analisado mais cautelosamente. Pensei no que ele havia dito de que "poderiam haver novidades". Isso me causava mistos e confusos pensamentos... Acredite, no entanto, que a constatação é definitiva. Meu estilo de vida, o meu corpo decadente, e a sombra que se aproxima furtivamente; corroboram a sentença oficial do médico sobre minha condenação.

 As menos de 100 horas me começaram a dar medo. Meu médico ainda não havia ligado. Eu acho que ligarei para ele.

 Subitamente vi-me revendo o filme de toda a minha vida, e devaneei de mãos dadas com as minhas memórias. Empregos passados, brigas e romances, risadas e revoltas, experiências e conhecimentos, possessões materiais e intangíveis. Pensei no que me restou a fazer, dos arrependimentos e dos planejamentos pendentes nunca até então concretizados. Serei eu buscado por um anjo? Irei para o inframundo de Xibalbá, para o céu celestial cristão, para o submundo de Niflheim, para o reinado de Hades no mundo inferior ou o de Osíris? Quem iria me buscar? Dormirei sem ir para lugar algum, no leito negro da inexistência eterna? Esses devaneios cansaram-me a mente.

 Débil e de uma imensurável tristeza apossando-se de mim, acordei de um longo repouso com menos de 70 horas de bagagem. Um desânimo total dominou minhas faculdades emocionais e toda a minha mente entregou-se ao abraço da sombra, que conforme eu percebia, arrastava consigo as trevas mais um pouco perto ao meu redor. Pensei em meus pais, e o quanto poderia tê-los apreciado com mais frequência, expressado meus carinhos para com eles. Como eles irão receber a notícia de meu falecimento?

 Fagueira, eu vejo a escuridão da sombra permear a superfície do meu perímetro ocular. Minha voz enfraqueceu, meus remédios pararam de fazer o efeito desejado de outrora. Minha fragilizada saúde começou a deteriorar-se e passei a dormir mais. Minha memória falha com frequência. Sou como um espelho rachado, prestes a se partir. É pesaroso para meus finais momentos ser um peso a mais para minha amada esposa, a quem desejo toda a felicidade em minha postmortem. Eu preciso dizer o quanto a amo e a amei antes de ir.

 Estou fraco e contabilizo cerca de 43 horas restantes no meu bolso. O jogo está acabando? Não sei o número do doutor.

 Tentei auto-remediar-me com efeitos placebos apenas com o emprego de táticas psicológicas, mas meu corpo já não resiste muito. Incrível como essa fraqueza geral veio tão de súbito, como uma gripe. Minha voz está fraca e escrevo isso com o esforço máximo que me compete aplicado nas mãos.

 Eu sorrio para o meu cachorro, em sua sã alegria ao me acalentar com sua presença. Sua cauda perde-se na sombra que sutilmente esgueira-se ao redor de mim, no meu leito de morte, nessa cama moribunda que deito em minha casa. Minhas pílulas parecem homeopatia, meu organismo não sente nenhum efeito. Minha tosse está piorando.

 Um certo desespero acometeu-me ao deparar em acordar numa Sexta-Feira. Há uma semana o doutor sentenciou-me 7 dias de vida. Meu coração bate freneticamente como a de um garoto atlético, e meu peito inteiro dói. Eu não consigo respirar. Minha mulher me trouxe mais remédios e não conseguiu ligar para o médico. Tentei levantar-me e minha fadiga foi tão rapidamente exaurida que mal tive tempo de sair de meu quarto. A sombra já cobre-me a visão da porta, e a permeia as extremidades de todo o cômodo com a sua ausência de luz completa.

 Restou-me passar o dia inteiro deitado, o que eu detesto. Morrer de inanição? Droga, eu poderia estar morrendo pulando de paraquedas pelo o menos...

 Não sinto vontade de ir ao banheiro, de comer, apenas bebi meus remédios, escrevi e vegetei, como se ensaiasse para o que faria para sempre, até que o último átomo de meu corpo fosse decomposto. Eu sou um homem que aceita seu destino. Meu médico estaria errado se eu morrer agora. Ainda tenho 9 horas de vida. A sombra, antes tímida e sutil, agora abre suas asas e estende seus braços. Seu sorriso é obscuro, sua aura suga-me. Eu a consigo ver, e ela também. Sua natureza amistosa me compele a aceitar seu aceno com serenidade.

 Minha mulher saiu há algumas horas para cuidar de alguns documentos meus na agência bancária. Acredito que passará no mercado depois.

 Me restam, eu diria, cerca de 6 horas de vida. Meu cachorro dorme deitado no chão ao lado de minha cama. O médico não me retornou, e eu não consigo reunir forças para procurar onde minha mulher tem seu número anotado para ligar-lhe. Eu me sinto na ferroviária, recebendo o anúncio antecipado de minha hora de partida antes do trem chegar à plataforma. Eu sei que este trem contêm o meu assento reservado nele. Eu já me sinto sentado, viajando neste trem, que desliza pelos trilhos em câmera lenta, prestes a se chocar na parede escura no final de um túnel sem iluminação. E o trem adentra essa parede negra, silenciosamente, como se ela fosse um portal, e tudo fica completamente escuro e quieto. Para sempre.

 Eu ouço o telefone tocar na sala de estar. Não há ninguém em casa, eu continuo deitado, me sinto tão mais franzino para levantar-me e atender à ligação. Acredito que já escrevi mais do que o suficiente, embora não sei o motivo de esta-lo fazendo. A sombra me acena mais de perto, sua nitidez está espantosamente maior. Eu posso encará-la nos olhos e cumprimentar-lhe.

 Eu ouço o telefone tocar mais uma vez. Pode ser meu médico. Será que ele tem notícias a respeito do exame que faltava? Depois eu peço para minha esposa lhe retornar. Eu adoraria dar-lhe um último beijo e falar o quanto a amo, eu não hesitaria mais nem um segundo. Eu adoraria ligar para o meu pai e declarar-lhe, com toda a coragem que emerge e mim, a minha admiração à ele, e chorar de felicidade sem motivos, pois muitas lágrimas de dor já me acometeram nessa última semana. Adoraria levantar-me sem dor, de sair correndo pela calçada. Daria tudo para poder genuinamente criar novas amizades e laços duradouros, mergulhar em águas cristalinas oceânicas, e contemplar os últimos momentos sorrindo. "Morra grande", eles dizem. Me sinto, no entanto, muito fraco e sonolento novamente. Preciso do descanso na sombra que meus olhos buscam ao se fecharem. O telefone toca novamente... Melhor eu descansar um pouco.

10/03/2016

Na rota para o necrotério

Diz-se aos ventos que se uma ambulância, em alta velocidade na estrada, de repente desliga a sirene, significa que o paciente a bordo morreu. Você já deve ter ouvido falar disso. Provavelmente também já viu alguma viatura da ambulância, correndo pela rua em meio aos carros, com a sirene desligada. Essa ambulância carregava um cadáver que não conseguiu chegar a tempo vivo no hospital, morto durante o trajeto.

A lógica é essa: se o paciente faleceu, não há urgência em chegar ao hospital. Logo, a sirene é desligada. Pensava eu que minha destreza racional seria tão infalível quanto a lógica apresentada na sentença anterior.

No dia em que minha mente era mergulhada em doses colossais de compostos etílicos, as imprevisíveis consequências passaram-se desapercebidas. Totalmente afetado, meu sistema nervoso central era uma entidade paralela coexistindo em meu corpo, não mais obedecendo às ordens das sinapses destruídas do meu cérebro.

Devo justificar-me, contudo, que não sou e nunca fui um alcoólatra. Meus passos trôpegos e minha mente entorpecida foram resultados de uma série de episódios que julgo ser válido usá-las como pretexto para esse fatídico dia.

A recém morte do meu pai havia me arrasado, de tal modo que nunca havia sentido antes. Descobri um afeto e admiração por ele nunca antes expressada por mim. Esses sentimentos reprimidos me criaram uma profunda angústia e remorso por nunca tê-los deixado conscientemente chegar aos seus ouvidos. Tal mágoa corroeu-se a tal ponto que nem mesmo as correntes do tempo a curaram. Meu espírito começou a ser tragado por ter perdido para a eternidade a chance de dizer pela primeira vez "eu te amo" para meu ascendente paterno.

Os dias de trabalho tornaram-se mais difíceis, minha produtividade em declive, minhas contas em ascensão, meu relacionamento oscilante.

A fim de evitar prolongamentos: eu comecei a beber antes do serviço, no horário de almoço, depois do serviço, e constantemente aos finais de semana. Após uma sucessão de crises, minha namorada me deixou. O que já deixava meu emocional fora do eixo agora definitivamente o expulsava de sua órbita ao redor dos perímetros da minha sanidade, e minha fraqueza agora já manifestava-se como apoio o consumo excessivo de álcool.

Eu estava na rota direta para o precipício.

O fatídico dia era numa Quinta-Feira. No dia em que eu deveria, rotineiramente cumprir, como até então cumpria, minha ida e volta ao trabalho conforme minha escala de horário, fora pela primeira vez quebrada. Eu saí de casa, e não desci no ponto do meu local de trabalho. Minha mente já não estava sóbria, mesmo sem nenhum álcool ainda em meu organismo. Ela pairava além dos limites da capacidade cognitiva de um ser senciente e são, sem nenhuma base racional ou emocional para se sustentar da lógica, do pensamento crítico ou analítico. Eu apenas estava seguindo o caminho do meu próprio desespero.

Noto então, agora, que eu não estava na rota direta para o precipício. Eu já havia caído nele.

Encontrava-me, portanto, - no horário onde supostamente eu deveria estar entrando pelas portas do prédio do meu trabalho - nas ruas da cidade onde os bares são preenchidos a noite pelas almas perturbadas de corpos sórdidos que vagueiam por lá, em busca dos destilados que preenchem a vilania de seus demônios. Entrei no primeiro botequim e pedi minha primeira cerveja, com a falsa pretensão ilusória de que minha vida estaria ótima e repleta de motivos para comemorações.

Em poucos minutos eu me encontrava na terceira long neck, ingerindo-a ininterruptamente, recostado ao balcão do bar, como se eu fizesse dali minha própria balada pessoal durante pleno dia ensolarado de uma quinta feira. Eu conversava com o barman, com os transeuntes que passavam em frente e com os ocasionais clientes daquele estabelecimento. Não me lembro se foi a partir da sexta ou sétima garrafa que minha memória começou a falhar. Minha tolerância para o álcool sempre foi muito alta, portanto ainda me recordo decidir-me que cerveja não era o suficiente. Solicitei ao barman uma dose pura de cachaça do centro-oeste, e prontamente fui atendimento, tão rápido quanto virei o primeiro copo. Os dois outros copos foram consumidos na mesma velocidade. E após estes minha memória é um eclipse de tonalidade negra imensurável.

Acordei deitado na calçada cerca de três horas depois, tempo grande o suficiente para que desse grande margem de imaginação para o que pudesse ter acontecido durante essa lacuna de amnésia. Não sei se de fato dormi, ou se meu cérebro apenas havia recuperado parte de sua sobriedade. Não sabia onde estava. Ainda era de dia. Minha embriaguez não passara. Meu abalado emocional solicitava mais álcool. E assim eu o fiz.

Minhas próximas memórias são difusas e confusas. Eu lembro que brigava com uma mulher desconhecida por não notar em mim enquanto passava, ameaçando enforcá-la com gestos enquanto uma mão segurava um copo com um líquido marrom-glacê (conhaque, provavelmente). Lembro-me de tentar chamar cachorros na praça para beijá-los. Também me recordo de beber um copo d´água, porém a esse ponto o céu perdia sua cor azul e era abraçado pela pretidão cósmica.

É difícil descrever cronologicamente os eventos deste dia. Peculiar dia em que senti o amargo gosto dos meus sentidos serem nocauteados pelo excesso alcoólico, até não restar nada exceto total escuridão. A noite, eu ainda estava rua, em becos desconhecidos, abordando estranhos, sendo abordado por estranhos, ameaçando e vagando cambaleante para os confins da minha perdição, enquanto meu corpo lutava por um resquício de funcionalidade para me manter vivo.

Meu consumo de cerveja, destilados e sabe lá mais o que - durante este fatídico dia inteiro - não apenas me direcionou diretamente aos trilhos da minha condenação. As paredes do precipício já haviam sido rompidas, e a queda se encontrava ainda mais funda, além dos limites do abismo.

Eu estava na rota direta para o necrotério, sendo carregado dentro de meu caixão, para o despejo final do meu corpo desfalecido e minha fétida alma, com rins e fígado putrefatos, decompostos de dentro pra fora devido a minhas pútridas ações enquanto vivo. Tomei consciência disso quando me descobri estar dentro de um lugar fechado, deitado sob uma prancha rígida, cercado de aparelhos e pessoas ao meu redor, enquanto o ambiente cambaleava em adição à minha própria visão turva e confusa. Meus sentidos não funcionavam, meu cérebro sentia os ecos de uma dor indescritível, eu não conseguia enxergar em cores, e meu corpo clamava por misericórdia. Eu agonizava em cada centímetro da minha existência física.

Como eu fui parar lá ainda continua um mistério. Quem chamou a ambulância talvez nunca saberei.

Eu ouvia vozes de humanos tentando me manter vivo. Eu senti o cheiro do meu próprio sangue. Eu ouvi os ecos insuportáveis de uma bigorna em minhas orelhas, a condenação pelos meus atos percorrendo todas as minhas entranhas. Eu pude sentir minha respiração voltar a funcionar após experimentar o vácuo da inexistência, enquanto a ambulância movimentava-se por estradas desconhecidas rumo ao meu túmulo. Eu, contudo, não pude ouvir uma sirene ligada. Fui somente atingido pela lucidez na minha consciência ao ouvir, com meus sentidos ainda debilitados, uma voz feminina gritando para o motorista "Ligue a sirene de volta, ele tá vivo!".

Eu soube que, a partir deste momento, eu senti o gosto da morte que infringi a meu próprio organismo, por pura e simples irresponsabilidade inconsequente. Não há outra justificativa aqui.

Acordei no hospital, mais de doze horas depois. Eu não quis saber dos detalhes, Eu não sei exatamente o que aconteceu comigo. Assim que me senti melhor, dispensei explicações das enfermeiras e dos médicos e dirigi-me diretamente para minha casa. Eu tinha tido um happy hour e tanto.

Racionalizando sobre este fatídico dia, não sei o que isso me trouxe, exceto a consciência da amargura e do arrependimento, e de conhecer de perto a rota direta para a minha própria cova. Agora, apenas sei que nunca mais repetirei isso. Provavelmente não precisarei mais. Provavelmente eu não serei demitido, depois de ter faltado para ir afogar minhas amarguras internas. Provavelmente você já viu alguma viatura da ambulância, correndo pela rua em meio aos carros, com a sirene desligada. Provavelmente era eu que estava lá.

25/09/2015

Sem estrelas no céu escuro


 Em uma galáxia longínqua, havia esse planeta que em um passado muito, muito remoto, chamavam-a de "Terra". No período geológico Holoceno do Cenozoico, destacou-se o Homo Sapiens, da família dos hominídeos.

 Povos e impérios surgiram e caíram. Culturas globalizaram-se. O mundo inteiro tornou-se uma civilização global, composta pelos nossos antepassados humanos. A mentalidade arcaica da sociedade daqueles tempos, no entanto, foram altamente danosas. Poluição, desmatamento, guerras e ganância, extinção em massa de espécies, exploração de recursos naturais. Ações que conforme décadas se passaram tornaram-se insustentáveis para o equilíbrio do planeta.

 Nossos ancestrais não mediram suas consequências em ferir ininterruptamente o ecossistema da qual tanto dependiam. De natureza dúbia, os hominídeos da época foram, no entanto, capazes de superar suas atitudes de caráter questionável.

 Fomos capazes de aventurarmos-nos pelas estrelas. Séculos de conhecimento e ciência aliados à curiosidade foram aplicados à alma do espírito aventureiro e desafiador do homem. Lançamo-nos rumo ao céu noturno. A colonização do espaço sideral era, em primeira instância, necessária a longo prazo.

 O planeta que uma vez os humanos habitaram, chamado "Terra", não mais era um lar sustentável para a demanda da espécie. O aquecimento global havia tornado-se irreversível. A tecnologia para conter as ações prejudiciais ao habitat natural contrastavam com a ambição e a vaidade humana. Mesmo se eles tivessem tornado-se sustentáveis; o Sol, estrela hospedeira do planeta, iria esgotar o hidrogênio em seu núcleo, explodindo em alguns bilhões de anos. O que de fato aconteceu. Nunca jamais existiu tecnologia capaz de impedir esse processo. A estadia permanente dos humanos da Terra seria impossível de qualquer forma.

 Colonizar exoplanetas habitáveis em sistemas estelares distantes era necessário. Na infâmia de nosso antropocentrismo, a perpetuação da espécie humana estava intrínseca à sua capacidade tecnológica de lentamente ir se instalando em outros mundos. 

 Então, através das eras, os homens navegaram pelos mares negros do universo, colonizaram novos planetas, abandonando planetas condenados, atravessando galáxias, enfrentando mortes em massa por pousar no planeta errado, e entrando em guerra com outras civilizações intergalácticas... mas isso são histórias pra um outro dia.

 Nessa escala cosmológica, milhões de estrelas morreram. Outras estrelas nascem dos remanescentes químicos de outras estrelas que um dia explodiram em uma violenta, brilhante a catastrófica explosão. Essa lei imutável seguiu-se por bilhões de anos, permitindo que gerações de hominídeos perpetuassem sua existência através das eras, instalando-se em novos planetas por mais tempo com o emprego de tecnologias e políticas mais sustentáveis.

 Nas brumas do tempo-espaço sideral, porém, nenhuma estrela vive eternamente. A antiga hospedeira Sol morreu há muitos éons. E muitas outras hospedeiras estelares tiveram o mesmo fim através dos bilhões de anos. O Homo Sapiens, em sua sábia virtude, soube sempre prever a data da morte de sua estrela hospedeira, a fim de planejar-se rumo à outras terras longínquas do espaço.

 Após essa longa jornada cósmica, somos uma espécie completamente diferente. A evolução nunca pára. A transmutação celeste é infinita. Temos a lucidez de estarmos a mercê das leis da natureza. Nenhuma estrela vive eternamente, e com a ascensão da velocidade de expansão do universo, a matéria tornou-se mais condensada, dispersa e, sobretudo, mais fria conforme os (bilhões) de anos.

 Em nosso atual planeta, nossa estrela em breve morrerá.

 É hora de partir novamente. Com a condenação do nosso próprio terreno celeste, decretamos a vez de evacuar mais uma vez para o infinito cosmos em destino a uma nova estrela que comportasse nossa espécie. A humanidade destrava os portões de sua casa em busca de um novo lar.

 No imenso abraço do firmamento, a escuridão atravessa o que antes nos era um lar propício à vida. Embarcamos em novas terras cósmicas. Em alguns milhares de anos, nosso planeta estará em um banho mortal de radiação pela sua estrela hospedeira em fase de colapso, tornando-a estéril para a vida.

 Nenhuma estrela vive eternamente. A matéria condensada, dispersa e fria dissipou-se junto com a expansão das texturas do espaço tempo. O universo traça seus finais momentos. Há muitas eras não vislumbramos o céu à noite com o mesmo esplendor de nossos antepassados hominídeos na Terra. Em nosso último planeta, não tínhamos mais estrelas no céu noturno. O que aconteceu com todas as estrelas?

 Nós, como espécie, no nosso atual estado nômade celestial, parecemos não termos um novo palco planetário para poder respirar o oxigênio de sua atmosfera. Porque o oxigênio está disperso e frio, junto com todos os outros gases e materiais essenciais para o desenvolvimento de novas estrelas, planetas e condições de abrigo à vida.

 Somos exploradores do universo. Navegamos nos mares negros siderais por bilhões de anos, dando continuidade à nossa espécie em novos planetas, em novas galáxias, em longínquos cantos do cosmos.

 Conforme os aeons cósmicos transitaram, no entanto, menos estrelas eram visíveis no firmamento de nossas moradas planetárias.

 Estamos em busca de uma estrela. Uma estrela que talvez possa ser eterna, com um planeta em sua órbita, capaz de nos abrigar confortavelmente. Mas o oceano cósmico não nos pisca nenhuma distante luz, nem mesmo fraca o suficiente para ser detectada pelo mais poderoso telescópio.

 A última estrela parece estar morta, e o universo escuro como a mais sombria noite. Não nos parece ter sido dado outra chance nos últimos respiros do universo. Nossa sonda mãe agora circunavega as margens de um espaço em seus momentos finais.

 Estamos a procura de um novo lar, mas o universo não é mais como antes. As estrelas que antes existiam morreram, e seus gases e matéria não mais foram capazes de formar novas estrelas e planetas. As galáxias estão apagando, como holofotes de um palco teatral.

 Quando a última luz apagar, não terão aplausos.

 O espetáculo chegou ao fim. Acredito que nossa jornada acaba aqui. Juntos em um abraço mortal, até nossa gélida respiração final, vagaremos diante das marés negras, calmas e estáticas... eternamente no céu escuro sem estrelas

24/03/2015

Eu voltei

 É fácil para um homem perder a sanidade quando não há mais nada que ele possa perder. O emprego, o carro, a casa, e por fim, a mulher e filhos. E tudo por causa de alguns cretinos que não mereciam o oxigênio desse planeta.

 Quando um homem perde tudo, ele as tenta recuperar, engole suas lágrimas, batalha por uma guerra ainda não perdida, e luta de cabeça erguida para recuperar o que é seu. Mas quando um homem perde até mesmo sua dignidade, e o último lapso de seu orgulho é rasgado de sua pele, o que lhe resta? As garrafas de uísque não servem mais. O charuto não inibe a dor e as prostitutas já são todas descartáveis. Matar não é mais uma questão de vingança, e sim um mero entretenimento.

 Eu virei psicopata? Ou apenas sempre fui um?

 Ahh isso não importa agora.

 O primeiro filho da puta que eu mandei comer capim pela raiz me fez sorrir até onda não haviam mais dentes. Ele tinha um belo coturno e as minhas botas já estavam deterioradas, e eu mal tinha dinheiro pra pagar a conta naquele bar medíocre. O que eu estava fazendo lá? Eu não me lembro. Mas ele era um deles. Eu tinha certeza!

 Esperei até o sujeito sair daquela porra de reduto para fracassados e errantes inúteis. Não me lembro como paguei toda aquela quantidade de Jack Daniels afetando meu cérebro, mas me lembro muito bem de ter arrastado o infeliz pro beco da esquina e enfiado o punhal repetidas vezes na jugular dele.

 Minha jaqueta não manchou muito, mas eu precisei lavar meu coturno novo cinco vezes pra tirar todo o sangue.

 Pensei que ficaria assustado ou que a polícia me pegaria em breve, mas ninguém sentiria empatia ou saudades daquele bastardo. Era um degenerado com um pé no inferno. Eu apenas coloquei o outro pé dele.

 Meu segundo assassinato não demorou muito. Eu estava disposto a matar qualquer cretino que se metesse no meu caminho. Foi em uma de minhas andanças a esmo, durante uma garoa fina de um céu introspectivo e negro. Eu não tinha mais dinheiro para pagar as prostitutas. Só tinha uma garrafa já vazia de pura aguardente e a merda da coceira se espalhando pelo corpo inteiro implorando por um maldito cigarro.

 A mente e a razão esvaecem, e quando menos noto preciso sair correndo daquela calçada mal iluminada e deserta, onde escorre uma poça de sangue. Dessa vez o azarado que eu mandei pro purgatório com meus punhos não era um deles, mas o filho da puta deve ter merecido. De algum modo, ele foi primordial pra eu achar o próximo alvo da minha lista de sentenciados.

 O meu eu sóbrio já estava morto há tempos, então só me lembro de estar chutando a porta de um bar fedorento nas esquinas do inferno com meu coturno novo e esmurrando o primeiro arrombado que cruzasse meu caminho. Três gordos perdedores fedendo a merda de gato jaziam no chão com os cacos de vidro das garrafas de cerveja que enfiei em seus rostos barbudos e repugnantes. Não tive tempo de me desviar da pancada no crânio que levei. O taco de sinuca nas mãos de um dos cinco homens quebrou-se ao meio em cima da minha cabeça. O segundo tentou me enforcar, mas isso não me impediu de continuar mandando mais alguns corpos pra pilhagem. Me livrei dos dois e nocauteei o terceiro esmagando o cérebro inútil dele contra a parede de tijolos daquele muquifo de fim de mundo. Apaguei o quarto com uma testada bruta no nariz.

 Não tive a mesma sorte com o quinto homem... Desgraçado! Com um soco inglês, o corno! E era um deles! Tentei revidar e me reerguer, acertando um gancho no queixo dele, mas era tarde. Meu resquício de consciência morto pelo álcool me fez desabar no piso por alguns segundos, mas quando me reergui o viado já tinha ido embora.

 Devo ter acordado alguns dias mais tarde em algum lixeira há algumas quadras dali. Nesse intervalo de tempo devo ter dado o fim à mais alguns infelizes... não me lembro perfeitamente.

  Por que me deixariam vivo? Que tolo engano.

 Um mendigo me colocou sentado e perguntou se eu estava bem. Meu corpo inteiro doía e meus hematomas estavam por toda parte, mas isso não me impediu de deixar o mendigo com alguns hematomas também. Saí dali o mais rápido possível.

 Onde eu tinha deixado meu carro? Nahh que se foda... nem sabia mais quem eu mesmo era. O álcool era o único combustível que queimava minha sede por matança. E teria sido somente uma questão de tempo até eu achar e esganar o condenado... embora eu não soubesse exatamente quem fosse. Eu acho que já estava indo longe demais...

 Cheguei no motoclube do velho João, onde pude me banhar e roubar algumas doses de licor, como um irmão distante que acabara de chegar. Desfrutei de algumas horas da agradável Stefany, a puta mais carinhosa daquele cabaré, e amiga de antigos tempos. Uni o útil ao agradável e reuni informações valiosas dela. O filho da puta que me nocauteou com o soco inglês era um dos capangas do miserável Jader Andolino, quem em breve eu iria me encontrar. Jader costumava frequentar o bar do Bin Laden e estuprar garotas que ousavam se aventurar por aquele limbo de repugnância.

 Stefany disse que ele estaria lá na noite seguinte. Sabendo que Jader sempre andava armado, ela providenciou com o velho João a "segurança" necessária para eu ter um papinho com ele na "área de fumantes".

 O bar do Bin Laden era sempre frequentado por beberrões assassinos, então era o lugar perfeito para um extraviado como eu. Já em estado de embriaguez - e não me lembro o porquê -, o sujeito do meu lado estava desmaiado no chão de ureia com a cabeçada que eu dei em seu nariz. Não sei o que ele fez para merecer aquilo. Não diria que ele era "inocente"; somos todos culpados nessa merda de vida.

 Jader Andolino não sabia que exalava suas últimas respirações, assim como eu não sabia que bebia uma das minhas últimas doses de Jack Daniels. Eu o encarava do balcão do bar, apenas esperando Stefany chegar ao seu lado, como uma velha amiga colorida. Eu podia ver dali o coldre de Jader. Era um deles! Meus nervos tremiam para não sacar meu revólver e fuzilá-lo, então apenas me restava imaginar arrancando seus olhos ali, bem na frente de todo mundo.

 Meu crânio ainda latejava de dor, e mesmo o cigarro não amenizava. Era uma dor mais profunda, pior do que de todas as pancadas que levei dos tacos e do soco inglês daquele filho da puta sentado logo ali na frente, mal sabendo que ele sorria para a morte. Stefany se aproximou dele amistosamente, exibindo seu sorriso encantador e ocultando perfeitamente sua Colt 45 no coldre em baixo de sua mini saia. Que pernas!

 Já haviam se passado... quanto tempo? Eu não faço a mínima ideia. Stefany fez o sinal que havíamos combinado no motoclube. Os dois saíram acompanhados, em direção à saída, e como num jogo teatral, Stefany fingiu que me reconheceu como um amigo que há muito não via. Disfarçadamente, se aproximou de mim junto a ele para me cumprimentar, me apresentando ao meu "novo camarada".

 Após um breve papo, combinamos de ir para a "área de fumantes". Stefany se posicionou ao meu lado, e Jader seguiu a frente. Assim que Andolino entrou na "área de fumantes", seu rosto virou para nossa direção e teve um beijo roubado pela sola do meu coturno recém adquirido. O impacto foi forte, e o bastardo foi arremessado, o que teria sido uma cena engraçada se não eu estivesse possesso pela fúria.

 Stefany trancou a porta.

 Estirado no chão, meu peso caiu sobre o corpo frágil e ridículo de Andolino com um golpe certeiro logo no meio de sua face imoral, pedindo clemência para um ser impiedoso que despejava toda a força dos braços para amassar seus ossos.

 "Faça as perguntas antes que ele engula os próprios dentes e não consiga mais falar" disse Stefany para mim.

 Me levantei e apontei meu revólver emprestado do velho João para o fucinho de Jader, proclamando: "É melhor que me dê respostas, Andolino, ou você será carregado daqui direto para a sua cova!"

 Andolino deu um sorriso febril, ainda recuperando o fôlego que foi tirado dos meus socos.

 "Você quem está cavando sua própria cova! Você acha que isso foi um complô? hahaha... você foi vítima da sua própria loucura! Teceu seu próprio destino fadado à morte trágica e à solidão... seu verme! Eu e meu pai apenas o colocamos em seu devido lugar, mas você não aprende... Por que acha que foi demitido de seu emprego, perdeu tudo o que tinha e foi abandonado pela sua mulher e pelos seus filhos?"

 Toda a raiva, o desespero, a ira e o ódio se uniram em um grande acesso de cósmica fúria, e um turbilhão de nervos me fez berrar somente um categórico "Vai se fuder, seu filho da puta!!!" e engatilhar meu revólver apontado para a testa de Jader.

 Houve um eco do disparo por todo o bar, e um gemido rouco de dor saiu de pulmões perfurados pela bala da Colt 45 da Stefany. A filha da puta nem ao menos me explicou o por quê ter me traído desse jeito tão sujo!

 O sangue descia pelo meu corpo e manchava toda a minha roupa. Meu coturno já manchado fora banhado em poça vermelha, e Stefany destrancou a porta da "área de fumantes" e eles entraram.

 Eram eles! Eram todos eles (os que restaram vivos). Estava também o velho João...

 Ninguém arma uma armadilha pra mim! Stefany, aquela vagabunda... deve ter sido feita de bode expiatório para o velho João, que sorriu para mim ao ver seus planos darem certo, sejam lá quais tenham sido. Ele deve ter sorrido por longos quinze anos, tempo que eu passei em cana. Teria passado menos, se eu não tivesse afogado um policial na privada cheia de bosta e arrancado a orelha do meu "companheiro" de cela. O viado ficava olhando pra mim como se quisesse sugar minha alma.

 Todo a estirpe de Jader me abandonou sangrando naquele chão imundo. Me disseram algumas coisas sobre "os direitos de propriedade dos terrenos" e "o comércio de enxofre", mas nesse momento eu estava anestesiado pelo álcool e a bala nem doía mais. Eu nem ao menos me importava ali se eu iria morrer ou não... quando se é traído por uma prostituta, não dá pra se surpreender com mais nada.

 Chamaram a ambulância que em seguida me encaminhou até a delegacia de polícia, onde me mandaram à prisão. Eles já estavam me procurando antes mesmo do meu primeiro assassinato... antes mesmo de eu ter perdido meu emprego. Jader já sabia disso!

 Eu aguentei todas as sessões na solitária e as torturas aleatórias que os policiais corruptos e nojentos combinavam para me dar. As quatro tentativas falhas de escapatória devem ter ajudado na motivação deles em me bater...

 ...Até o dia em que eu fui solto. "Você cumpriu sua sentença e está livre para ir", me disseram. Grande bosta... nunca me livrarei da minha real sentença. A sentença de sofrimento eterno em busca de uma vingança que jamais será alcançada, mesmo através das inúmeras mortes que causei durante todo meu percurso.

 Mas a minha busca não está acabada. Meu objetivo ainda vive, sendo mastigado pela fome da minha ira. Porque quando um homem perde tudo, só lhe resta perder a sanidade.

 Eu voltei, seus filhos da puta. Estou indo atrás de vocês... Estou precisando de um coturno novo.

19/08/2013

Relato de um amigo que morreu por 6 minutos


 Meu amigo tem um histórico familiar de problemas cardíacos, e francamente era apenas questão de tempo até ele começar a ter alguns problemas também. O doutor disse que provavelmente era devido ao seu alto colesterol, ou estresse, ou uma combinação de ambos.

 Ele está bem agora, pelo o menos fisicamente. A experiência foi muito difícil para ele, e eu posso apenas imaginar os efeitos que isso o trouxe.

 Ele morreu. Por seis minutos ele não respirou. Sem pulso, sem movimento, sem nada. O doutor disso que não é tão raro assim, mas não torna o fato menos inacreditável. Eu pensei que essa experiência seria revigorante para esse meu amigo. Pensei que ia botar nele um orgulho rebelde, sabendo que ele trapaceou a morte. Mas não foi bem assim. Meu amigo decaiu sob uma profunda depressão. O tipo de depressão que não só afeta o depressivo, mas suga toda a felicidade de todos ao redor dele. Só imagino o quanto deve estar afetando sua família, sua carreira.

 Mas quanto á história aterrorizante: aconteceu numa noite em que eu senti a responsabilidade como amigo de tirá-lo de casa para deixá-lo bêbado. Ele não estava afim, claro, mas consegui trazê-lo para o bar com um punhado de amigos. Era uma noite quieta no bar, perfeita para contar histórias. Nós rimos e brincamos, até meu amigo depressivo soltou alguns risos. Porém, inspirado pelos efeitos do álcool, eu fiz uma pergunta que cuja resposta agora eu sei que estava comendo meu amigo por dentro:

"O que você sentiu ao morrer?"

 Ele ficou sombrio e obscuro, e imediatamente eu me arrependi de ter perguntado. Me desculpei, mas ele disse que estava tudo bem e concordou em nos dizer. Ficamos todos quietos e nos aproximamos para escutar, ansiosos para ouvir um conto sobre luzes brilhantes e anjos cantando. Mas não foi bem assim.

 Aqui está o relato do meu amigo. Sem as palavras exatas, no entanto tentei ser fiel ás suas palavras:

  "Vocês devem pensar que a morte é um alívio. Uma escapatória agradável da dor e agonia, uma escapatória de uma vida desagradável, de uma guerra infestada, miséria arrasando esse planeta que chamamos de Terra, para um lindo lugar de interminável paz e felicidade. Mas não foi bem assim.

 Pelo o menos não foi comigo. A dor começou intensa, e continuamente ficou pior por toda a manhã. Eu não podia faltar no trabalho de novo, sendo que eu já estava improdutivo. Tomei um Advil, estiquei meus braços, e saí. Eu realmente não devia ter dirigido com a dor intensa, o tráfego só piorou meu humor. "Esqueça isso", eu dizia pra mim mesmo, "seja homem". E eu fui, por um momento. As coisas ficaram piores quando eu estava sentado na minha mesa, lutando para respirar, pedindo ajuda. Foi quando eu apaguei.

 Eu ouvi muitas vozes, vozes de pânico. Gritos, sirenes, vozes. Eu, de alguma forma, percebi que estava em uma ambulância, e tentei falar. Aí apaguei de novo. Tudo virou preto por um lado. Os sons ao meu redor se tornaram continuamente mais abafados, substituídos por um alto barulho de água nas minhas orelhas. Foi quando eu morri.

 A única maneira que eu posso colocar em palavra como se sente ao morrer é que tudo está sangrando de você. Não apenas sangue, mas... a essência de si mesmo. Todo o seu conhecimento, sua personalidade, suas memórias, seus desejos, você. Tudo vazando e caindo. Não havia luz no fim do túnel. Não havia vozes de anjos cantando. Morte é realmente sombria como soa. Eu não descreveria como "falecer" ou "passar dessa pra melhor". Não, "morte" é a palavra perfeita. Se você me perguntar, não existe vida após morte. Não me senti alguém ou algum Deus vindo até mim para me levar para um lugar mágico, ou até mesmo um diabo ou torturador. Não, a real resposta é mais assustadora que qualquer teoria possível. Não há nada.

 Após seu tempo na Terra, não há nada esperando por você. Você não será lembrado exceto por alguns humanos que foram tão insignificantes como você. Será como você nunca tenha existido. Não há significado para a vida. Não há grande mistérios ou vida após a morte. Quando você morre, você não existe mais. Um destino pior do que qualquer um, na minha opinião.

 Eu era um homem de fé. Eu esperava totalmente ouvir vozes de um Deus quando eu morresse. Eu esperava totalmente em ver minha mãe e meu pai de novo. Esperava em encontrar com meu cachorro e abraçá-lo mais uma vez. Eu esperava ser feliz. Pra sempre."

 Mas não foi bem assim...

26/06/2013

A criação do leite condensado


 Certa feita, Odin estava mortalmente entediado em seu trono onde podia observar tudo o que acontecia nos nove mundos, a partir do palácio de Valaskjálf em Asgard, o reino dos deuses.

 Suas aventuras como andarilho por Midgard, o reino dos mortais, não mais lhe eram interessantes. Sleipnir, seu cavalo de oito patas - o mais rápido do universo -, não estava o divertindo, assim como sua lança Gungnir, que permanecia em estado imóvel ao seu lado no palácio. Até mesmo Frigga, sua esposa e deusa da juventude, não satisfazia seus anseios de algo a mais. Odin buscava algo novo, uma emoção inédita, algo que nunca experimentara antes. Pensou em experimentar LSD, mas parecia algo arriscado. Ectasy também estava fora de cogitação. Estava há tanto tempo em inércia, apenas ociosamente observando os nove mundos (e toda a sacanagem que rolava, especialmente no mundo dos elfos), que não sabia mais o que fazer para se divertir. Ele, temeroso que isso poderia o meter em maus lençóis (como manchar sua reputação entre os deuses), buscou imediatamente os auxílios da deusa da sabedoria Erda, outrora sua amante, da qual geraram juntos as Valquírias.

 Ao encontrar com sua antiga parceira de casos sexuais sob a sombra da árvore Yggdrasil, este prontamente a questionou:
 - Erda, deusa da sabedoria, me sinto tão entediado! Como faço para acabar com essa inquietação que me atormentas?
 - Ora, veja quem me procura após tanto tempo... - disse Erda, ríspida - parece que o próprio deus da sabedoria parece não conhecer meios de resolver suas próprias incertezas.
 - Pare de sarcasmos e me ajude de uma vez, ingrata deusa insaciável!
 - Faça uma orgia. - declarou Erda, sem quase nenhum momento de pausa entre a sentença de Odin e a dela.
 - O que significa isso? Estás de gozação comigo, Erda?
 - De forma alguma, muito pelo contrário. Ora, pense comigo. - Odin se mostrou prestativo - Seu coração precisa de uma adrenalina nova, uma emoção que você nunca teve antes, algo que encherá sua alma de encanto e brilho novamente. Nem as maçãs douradas da juventude, seu precioso hidromel ou uma desfibrilação serão páreos para esta experiência que vós indico.
 O deus dos deuses ergueu suas sobrancelhas em tom de interesse a uma ideia genuína.
 - Continue! - ordenou Odin.
 - Por isso um massivo jogo do amor aqui, em seu palácio, com deusas e ninfas, todas somente suas, seria o ápice.

 Odin, com um olhar fixo, processou a ideia em sua mente e, sem pestanejar, concordou em consumar o coito coletivo. No dia seguinte, chamou seu filho Thor e o ordenou que capturasse as mais belas ninfas de Midgard, e levá-las ao seu palácio. Thor, sem ter nenhuma explicação concreta para tal missão, partiu mesmo assim nessa aventura, onde acabou, por conta disso, se envolvendo na terrível caça do cachos de cabelos ruivos, porém essa é outra história.

 Alguns dias depois, Thor regressara e, passando pela ponte Bifrost, levava consigo incontáveis ninfas, das mais belas e adoráveis que um dia já andaram pelo mundo dos mortais. Odin já se deleitava com seu hidromel e, assim que as ninfas chegaram, levou todas elas para um cômodo especial, iluminado por velas, bebidas elitizadas (entre elas o hidromel), e grandes almofadas vermelhas espalhadas por todo o chão, além de diversas bandejas com pílulas do dia seguinte. Sjöfn e Freya, deusas do amor e do sexo, também estariam presentes na orgia, principalmente para dar um toque mais celestial ao bacanal.

 E em grande volúpia e desejos carnais eles começaram, com tamanha intensidade que Odin nunca se sentira tão vivo antes. Sua esposa Frigga também estava reunida entre todo o ardente jogo sexual que acontecia simultaneamente em cada centímetro daquela sala, com três, quatro e até mesmo cinco mulheres, totalmente despidas, ardentemente desejando umas as outras, enquanto Odin se deleitava também com três ou quatro de uma só vez, intercalando com todas as presentes. Todos estavam, é claro, agindo pelos efeitos do pó mágico do amor que Sjöfn botou na bebida deles.

 A veemência amorosa era tão poderosa e vigorosa que, no clímax da orgia, todos conjuntamente ejacularam com uma força nunca antes sentida pelos deuses ou mortais. Todas as pernas tremiam, as cabeças olhavam pra cima e os olhos reviravam. As bocas abriam e gemiam um som de alívio e intensidade, enquanto alguns, perdendo o equilíbrio, pendiam pros lados, com um enorme sorriso em suas feições. A força do orgasmo simultâneo fora tão poderosa que todo o líquido ejaculatório, de cada um dos presentes naquele cômodo, se juntou em um só, e formou uma pasta densa e massiva, surgindo assim, o tão conhecido leite condensado, cultuado até hoje pelos deuses. O leite mais divino dos nove mundos a partir daquele dia tão orgásmico. Não era somente mais divino do que o hidromel, bebida inigualavelmente e insubstituível para Odin.

 Os demais deuses se regozijavam com o novo alimento divino, enquanto Odin não podia ingeri-lo, já que o leite condensado fazia-o ter uma forte ânsia e vomitar, o que fora uma grande decepção para o pai dos deuses, já que ele era o único a passar mal enquanto todos se deliciavam com ele. Odin nunca mais fora entendiado, no entanto, promovendo outras inúmeras orgias com suas ninfas e deusas do sexo, e produzindo mais lente condensado.

20/04/2013

Soldado das trevas


 Mais escuro que a própria noite, o soldado ruma ao seus deveres. Como um sopro na pálida madrugada, ele se deslocava, tão silencioso quanto apenas ele próprio. Não menos humano depois de tudo o que presenciaria e faria, porém tampouco mais robótico e desumano do que já era antes.

 Marchava e lutava em batalha, rumo ao cumprimento de seus objetivos. Sua vitória era iminente. "Por que simplesmente não morro e e me liberto dessa atrocidade?", pensa ele, na destrutiva penumbra. Seu desejo era ser morto. Não por honra, mas por desgosto, por estar participando disso, e não ter outra escolha, a não ser assassinar. Não havia, entretanto, tempo para pensamentos filosóficos em meio a matanças e carnificinas em nome de anseios políticos.

 Uma sombra na escuridão, tão negra que até a morte temia-o. Fazia-se mais obscuro conforme cumpria com perfeição os planos. Seu coração foi vendido para o reino subterrâneo, onde pertencia ao supremo do andar de baixo. Seu corpo não mais bombeava sangue, apenas processava ordens. Mais duas, três cabeças. Sua completa negritude apenas absorvia a luz, tornando-o mais escuro do que um apocalíptico eclipse. Mais desalmado se tornava a medida que prosseguia com êxito sua jornada na batalha contra irmãos da própria espécime, separados apenas por nacionalidade.

 Nem os frequentes lampejos ocasionais iluminavam-o, que permanecia dominado pela pretidão. Tampouco as flamas das batalhas acendiam qualquer traço de luz em seu rosto. As cinzas e fumaça da aniquilação, da qual ele era protagonista, apenas realçavam mais seu medonho aspecto. Mais quatro inimigos abatidos. Mais negritude em sua aura que enegrecia seu corpo desalmado.

 Sua vitória era cada vez mais iminente. "Estou aqui, inimigos! Matem-me e me libertem!", gritava ele, em meio a atrocidade da qual ele não poderia ser jamais liberto, até que as incessantes explosões, disparos, gritos e terror cessassem.

 Não era, agora, um ser vivo, um corpo de carne e ossos, uma alma racional e emotiva. Apenas era. Você sabe que ele está ali porque você não o vê, enxergando apenas um espectro. Assim como um buraco negro. Nem a mais forte das luzes poderia iluminar aquela vasta escuridão, que não era nada além de um vulto sobrenatural.

 Sem rosto, sem feições. Apenas preto. Nem o mais profundo escuro do submundo era capaz de deter aquele desprovimento de iluminação. Não haveria inimigo que pudesse abatê-lo, nem adversário presente nas redondezas que sobreviveria para comparecer ao seu réquiem.

 Todos os seus objetivos foram cumpridos. A vitória era deles. "Por que saí dessa atrocidade vivo?" pensa ele, na melancólica destruição humana. Seu desejo era morrer. Não por honra, mas por desgosto, por ter participado desse ato tão vil. Mas agora era tarde. Sua transformação já estava completa, não lhe restando mais nada. Exceto ser uma sombra vagante a tormentar as pessoas, metamorfoseado eternamente em um soldado das trevas, aparecendo em janelas e espelhos alheios. Apenas em busca de um reflexo da qual possa iluminá-lo novamente.

11/04/2013

Segredo sagrado


 Ciganas, mulheres que não choraram, feiticeiras, judias, hereges. Todos aqueles que agiam em desacordo com os dogmas da igreja. Homossexuais, blasfemadores, protestantes, bígamos. Todos sendo queimados. Há anos sendo inquisidor, realizando o ofício de meu Deus, o único e absoluto. Enviando a alma daqueles infiéis para o soberano do submundo desde 1557, não tenho mais certeza se estou plenamente de acordo.

 Há tanto tempo lutando contra a heresia, muitas bruxas eu já condenara. Todos eles eram realmente bruxos e hereges? Suas condenações foram justas?

 Não sei se é sinal divino ou criação maligna de Lúcifer. Apenas parece que estou perdendo minha sanidade. Fiz coisas que não deveria saber. Não quero mais levantar ao acordar pela manhã. Sei de coisas que deveria desconhecer. Atos que, sem dubiedade, já cedem minha alma á agonia das chamas infernais. O amor que eu tinha no começo, em acusar e julgar bruxas e satanistas, nos últimos tempos, só me trouxe desgosto e um estranho sentimento infeliz. Depressão, talvez?

 O que está aconteceu comigo? Por que tanto desprazer? O que fiz? Tantas histórias presenciei, tantos sigilos tenho. O que me trouxe onde estou agora é o que chamo de "segredo sagrado".

 Poucos meses atrás. "Jeanne Rodriguez, estás sendo acusada de bruxaria perante a corte religiosa. Como você se julga?" assim proclamava eu, perante o altar. A acusada, em prantos, respondia "eu sou inocente! Eu nunca fiz mal a ninguém!". Foi dada a ela uma chance de sobrevivência caso ela delatasse alguma outra bruxa, para esta também ser condenada. Propôs então Jeanne:
 - Apenas posso acusar a tal bruxa se ficarmos a sós, inquisidor.
 - Mas que papo tolo é este, bruxa? - assim disse eu, impaciente.
A acusada não se fez de rogada e prontamente explicou com palavras fajutas, mas que me convenceram. Embora tenham objetado, proclamando "Êxodo 22,18: Não deixarás viver a feiticeira", lá estava eu, com a suposta bruxa, em privado, quando ela abre o jogo. Sem cerimônia, ela começou a se jogar pra cima de mim, com tal promiscuidade que, eu, absinto de prazeres sexuais, não deixei de resistir. "Exorcize a bruxa, Juan Guerrera, queima-me na fogueira", assim dizia Jeanne, despindo-se. Após consumado o ato do coito, fui ameaçado:
 - Sou inocente de bruxaria, e você também é inocente em ter copulado comigo. Vamos manter assim, pode ser?
 - Blasfemadora, feiticeira! - protestei, embora nem eu acreditasse nas minhas palavras.
 - Conto com a sua palavra. - assim escapou Jeanne, da acusação de bruxaria, onde fui obrigado á acusá-la de inocente.

 Esse ainda não é, no entanto, o "segredo sagrado". Foi somente como ele começara.

 No prosseguimento do julgamento, ela foi liberta. Questionado pelos arcebispos e demais inquisidores, retruco:
 - Não se preocupem com nada. Eu mesmo encarrego-me de buscar o vitimizado. E ela não era bruxa de qualquer jeito. - respondi, de forma vaga e um tanto distante. Imediatamente parti em busca de Jeanne. Alguma coisa me fez ir rumo a ela. Apenas posso estar possuído pelo demônio, mas sei que não é isso. Algo me domina. Preciso vê-la. Procuro-a pela cálida tarde ao redor do vilarejo, perguntando aos moradores da região. Já cansado, franzindo a testa enquanto transpiro debaixo da forte onda de raios solares, consigo enfim as coordenadas da morada de Jeanne.

 Encontro-me diante de sua porta, e em instantes, lá está ela. Minha aura acende pelo lampejo de sua presença. Rudemente, ela pergunta "O que o senhor deseja?". Respondo-lhe, mesmo impondo-me à todas as minhas convicções e ao Senhor, declaro meu desejo por ela. Talvez aquele acontecimento sexual mexera com minhas emoções. Queria-a. E assim fazia questão de objetivar, pois por dias e dias fui-lhe até a porta para que me concebesse uma chance. Até que um dia ela não fechou a porta brutalmente em fúria, muito pelo inverso. Começou a sorrir. E agarrei-a, saboreando seus lindos lábios, em volúpia.

 Nosso amor, por muito tempo, fora recíproco. Todavia, um dia ela adoeceu.

 Sem pestanejar, fui a mando dela ao bosque, seguindo suas instruções, em busca da cura. Até que deparei-me estar envolvido no tão terrível segredo. Oh, meu Deus! Eu estava tão abalado em estar traindo a mim mesmo, a Deus. Por que eu apenas não rezara? No entanto, estava me sentindo tão vivo! Estava extasiado. Eram emoções opostas. Queria apenas salvar minha amada. E finalmente cedi à blasfêmia. Sou completamente um herege, um hipócrita, traindo ao Pai. Estava oficialmente tornando-me um bruxo! Tudo em nome da insana paixão, onde faria qualquer coisa para trazer saúde e vigor de volta para minha angelical Jeanne. Colhi as plantas e ervas necessárias, reuni os ingredientes demandados e realizei a poção de cura, em meio ao jardim. Tudo conforme seus ensinamentos.

 Porém, agora, amarrado a esta tábua de madeira no altar, nada mais me resta do que remorso. A heresia reinou perante meu coração cego, e não adianta negar nada mais, apenas me render ao tormento eterno. Agora tudo é inútil.

 Ciganas, homossexuais, blasfemadores. Há anos, todos os dias, alguns tiveram sua vez. Hoje a vez é minha. Sou o próximo a ir a julgamento. Fui flagrado e capturado no bosque, após terminado o preparo do remédio. Eles observavam o segredo tudo desde o começo, escondidos sob os arbustos. Estavam lá a mando de Jeanne. Deveria eu desconfiar de sua farsa desde o começo. Pelo o menos ela também está sendo julgada. Por outro inquisidor, de certo. Agradeço ao desconfiado Sanchez, amigo cardeal que a capturou também. Nunca deveria ter confiado naquela suja e traiçoeira bruxa Jeanne. Ei de reencontrá-la em breve, nas flamas agonizantes e incessantes do inferno.

18/01/2013

Um conto erótico nada excitante

Juraci já derretia em suor naquela calorosa tarde, sentada sobre a sua cadeira de balanço, coçando suas varizes e cutucando com os dedos sua unha encravada no dedão. Em frente a sua casa, parou um caminhão de carga, e dele desceu o motorista Regimar, vestindo uma excitante camiseta xadrez vermelha exalando a cachaça, reluzindo todo o seu libidinoso sobrepeso em direção aos olhos de Juraci, com seu semblante de surpresa, atraída por aquela formosura de caminhoneiro.

Ele dirigiu-se até a traseira do veículo e descarregou algo grande e empacotado. Juraci esperava sexymente na cadeira, que rugia alto e rasgado a cada movimento, devido a vasta massa gordurosa dela e seu par de mamas suspensas que sofreram o efeito gravitacional com o tempo. Regimar se aproxima da casa, com uma entrega pesada. Juraci fica estupefata com a forma que ele carrega a aparentemente pesada encomenda de forma tão habilidosa.

Mal ele chegou ao portão da residência e Juraci já abrira a porta, com seu olhar cansado de flerte e seu sorriso marcado que destacavam suas profundas rugas de sua pele ancestral. "Entrega para Juraci Meira", anunciou Regimar. Sua voz rouca resultado de anos de inalação de nicotina, pronunciando essa frase, foi o suficiente para ceder Juraci em tesão. Como era uma entrega de grande porte, Regimar tratou de carregar a caixa até a sala de estar, onde lá a desempacotou. Tratava-se de uma nova poltrona, encomendado pelo marido de Juraci.

Com a nova poltrona, ela estava decidida a testar a qualidade do produto ali mesmo, na hora. Empurrou o apetitoso Regimar no estofado e começou a lentamente despir-se em frente a ele, tirando com dificuldade sua camisola, atolada em seu corpo roliço. Em seus tenros 50 anos, ela estaria convicta de que, com seus dois filhos não morando mais em casa, ele e seu marido reviveriam suas vidas sexuais. Mas não foi assim. Seu marido já não tinha o mesmo apetite sexual de outrora. Já estava velho e gordo. E Juraci, mesmo estando na mesma situação, nunca parou de ter aquele incessante tesão e excitação que ainda encharcava a sua preciosa vulva, escondida e revestida por camadas adiposas e pelos pubianos presentes ali há mais de quatro anos.

Regimar, espantado, levantou-se e decidiu ir embora, todavia foi interrompido por Juraci. "Vamos fazer isso, aqui e agora". Necessitada disso, ela queria acabar com aquilo ali, naquele momento, naquele local. Não aguentava mais a carência sexual. E Regimar também não. Afinal, na sua 4ª década de existência, sua vida sexual também não ia nada bem. Subitamente, subiu-lhe a cabeça um tesão incontrolável, uma forte vontade de fazer o que há muito não fazia.

Dominados por volúpia, rapidamente os dois se despiram, exalando os odores de transpiração que os encharcavam e que os deixavam grudentos. Possessos por saciarem seus desejos carnais, os dois se agarraram com todas as forças que seus músculos decadentes revestidos de gordura podiam prover. Suas enormes protuberâncias na área da barriga lhes dificultaram a penetração, mas eles chegaram lá. E foi intenso como nunca. As pernas peludas e salientes de Juraci se entrelaçavam nas costas enrugadas de Regimar, enquanto ele, concentrando-se em ser preciso, tentava encaixar sua genitália naquela confusão de peles extras sobrepondo a vagina de Juraci.

Se envolveram em uma imparável troca de fluídos corporais, com beijos babados e gritos berrantes de prazer. Deleitosa, Juraci se entregava àquela espaçosa barriga de Regimar que, junto com a extensa camada adiposa dela, faziam os dois ficarem 1 metro separados do rosto um do outro, sendo impossível fisicamente se beijarem e alcançarem penetração ao mesmo tempo.

Após longos minutos de dificultosos movimentos pélvicos para prosseguir com a transa, Regimar finalmente terminara o ato. Se despedira rapidamente e, sem acreditar, voltou ao seu caminhão, enquanto deixara Juraci sorrindo a toa.

Ela estava maravilhada, nunca experimentara uma aventura tão fascinante quanto aquela. Aquele dia certamente para ela foi memorável, e reacendeu ainda mais as suas chamas de desejo sexual, que recuperara totalmente o seu anseio de viver, e a faria sorrir por anos. Isso, é claro, se não estivesse grávida e fosse parir um filho bastardo.

Enquanto isso, Regimar lembrava com um sorriso na face deste dia tão insano e especial, enquanto observava os pontos amarelos em seu membro reprodutor recém-surgidos. Essa experiência alimentaria a sua sede por masturbação por meses. Isso, é claro, se ele não estivesse contraído algum tipo de infecção aguda necrosante e tivesse que amputar sua genital em breve.

15/01/2013

O ceifador


 Maíra acordara cedo naquela manhã de Domingo. Era a voz serena de Izrael, seu irmão caçula de 6 anos, sutilmente se aproximando de sua cama, que a desperta. Não era apenas mais um sonho, era de fato ele. A garotinha ruiva de 9 anos já expressava um contagiante sorriso e euforia. Há muito que os dois não se viam. A última vez que se encontraram foi há um bom tempo, em um bonito e grande campo, com gramas aparadas, flores em abundância, além de placas de pedras estranhas por todos os lados, fixadas em pé sobre a terra. Maíra não entendia bem o que aquilo era.

 E era para esse campo onde Izrael iria levá-la. "Por que vamos pra lá?". Seu irmão retruca "Porque é lá onde estou morando agora". Finalmente iriam brincar, ser irmãos juntos novamente e matarem a saudade, assim pensava Maíra. Era um grande presente de aniversário pra ela.

 Os pais de garota não estavam de acordo em deixá-la ir para aquele local. Rejeitaram tal ideia após Maíra perguntar pela permissão deles. O pai temia que isso já começasse a ser sinal de insanidade. Diante da rejeição deles Izrael prontamente acalmou seus pais. Como ainda eram sete da manhã de Domingo, ambos os pais tinham acabado de acordar. Izrael gentilmente os colocou para dormir. Por um bom tempo. Sem que eles o vissem, claro. Não queria causar nenhum choque após tanto tempo se verem. Maíra não entendeu o que acontecera, mas seu irmão o assegurou que eles se reencontrariam. Em breve.

 Acompanhada por seu irmão, Maíra foi guiada por ele até o campo. Enquanto andavam, Maíra se dirigia a ele de forma contagiante. "Sabia que eu sonho direto com você, irmãozinho?" "Eu sei". To tão feliz de te ver de novo, Izrael, dizia Maíra. Ele retrucava de forma pouco amistosa. "Por que estamos indo praquele parque?". "Não é um parque, é um lugar pras pessoas descansarem e terem paz", explica o irmão. Ainda não estava claro para ela, mas estava contente e animada. Estava matando a saudade. "Você fará 10 anos amanhã, certo?". Sim, responde Maíra. Ótimo, ainda há tempo, dizia ele para si mesmo.

 A caminhada debaixo do banho de sol daquela manhã de céu limpo não impediu os dois de chegarem ao local, com pedras cravadas em pé por todo o lugar. Maíra ainda não saiba muito bem o que estaria fazendo lá. Izrael mandou-a deitar. "Vamos descansar um pouco aqui". Descansar? Maíra pensara que iam brincar. Relutante, ela se levanta, mas ele a derruba com hostilidade. "Descanse!", ele ordena. Maíra fecha os olhos, amedrontada. "E agora?", pergunta Maíra. Antes que pudesse esperar por uma resposta, a garota ruiva sente uma agonizante dor no peito, arregalando os olhos e berrando em sofrimento. Sua visão turva vê Izrael, com um sorriso maléfico, cravando uma faca com marcas de sangue nela.

 "Eu estava com saudades, então vim te buscar, irmãzinha" dizia enquanto ela adentrava o outro lado. "E desculpa pela faca suja, eu não tive tempo de limpar após colocar seus pais pra dormir também. Bem vinda ao meu lado, Maíra, agora vamos ficar juntos! Você, eu, a mãe e o pai!" Assim discursava Izrael. Ele se levanta, após ter cumprido o seu objetivo. Em um dia em que não se foi morta apenas a saudade, ele segue rumo de volta á sua pedra, onde esculpida nela dizia a frase "Que descanse em paz eternamente no reinado de Deus, Izrael."