09/01/2014

O preto gordo gay

 Estava sempre tão radiante andando pelo corredor da escola.

 Não tinha nada de imperfeito nela. Era um encanto. Encanto esse que se quebrava ás vezes com algum amigo (amigo só na escola) que se aproximava me convidando pra ir ver a cagada que deram na última cabine do banheiro masculino, descrevendo que tinha merda até no lado de fora da porta.

 Ela parecia perfeita. Pensava que era porque eu ainda não a conhecia, mas esperava estar errado.

 Era intervalo. Estava sentado perto do refeitório, que servia um macarrão com molho que parecia larva com pus de infecção na coxa, acompanhado de um hambúrguer semelhante a esterco de cabrito fermentado. Dois amigos (amigos só na escola) interagiam comigo, enquanto concentrava-me diretamente nela. Ela estava longe, mas ainda sob vista. Eu me sentia com o olhar de uma águia, pronto para atacar como um falcão. Mas eu estava mesmo é aterrorizado como uma gazela. Queria conhecê-la de qualquer jeito, queria me aproximar dela.

 Ela parecia perfeita. E era. Obviamente não havia nada de errado nela. Exceto pela figura de uma pessoa, de jeitão arrogante e mesquinho que nunca saía do lado dela. "Deve ser amigay", pensava (rezando pra que estivesse certo).

 Pela primeira vez, deixei de reparar só nela, e comecei analisar aquele que era sua companhia constante. Era negro, gordo, e observações indicavam traços gayzísticos nele. Não só porque eu esperava que ele fosse gay, mas porque ele tinha jeito de gay.

 Ou seja, ele era um preto gordo gay. Tente entender essa merda. A tripla personificação das maiores vítimas da sociedade. Imagina só, sofrer bullying em tripla dose. O quão sacana Deus deve ser pra permitir uma porra dessas. Não me parece justa a vida de uma pessoa que tenha nascido com as três qualidades mais sacaneadas e vítimas de piadas, preconceito e perseguição pela sociedade. Por qual característica ele já deve ter sido mais descriminado? Não que eu tenha sentido pena por ele de qualquer forma...

 Acabei, por fim, juntando essas três designações e nomeie-o de "o preto gordo gay".

 As palavras podem ser impactantes, um pouco hostis, mas são objetivas. As palavras combinam, e a sonoridade e o ritmo são perfeitos: Preto gordo gay. É uma puta frase harmoniosa.

Se fosse "gordo gay preto" ia soar esquisito.
"Gay preto gordo" é pior ainda.
"Gay gordo preto" não faz sentido nenhum.
Agora, "preto gordo gay" é estupendo. É magnífico.

 Não que eu tenha algo contra homossexuais e negros, mas quem não tem algo contra gordo? Não só porque é legal, mas não tem nenhuma lei de proteção aos gordos ainda. Como ninguém tá pouco se fodendo pra gordo, zoar eles ainda é tranquilo. Se o preto gordo gay fosse magro (ou melhor, malhado), teria se salvado do bullying. Ninguém fode com um preto malhadão gay.

 Mas esse aí que andava ao lado dela era só mais um preto gordo gay.

 Hesitei por mais alguns dias em tentar conhecê-la, deixando sempre pra amanhã. No entanto, certo dia ela estava sozinha durante o intervalo, sem amigos (vocês já sabem). O preto gordo gay tinha faltado! Foi o chute nas minhas nádegas que me fez tomar uma atitude. E fui.

*

 Me aproximei. Toquei-a, chamando sua atenção. Todas as minhas forças diziam "sai daí caralho! Foda-se isso, vá pra casa ver pornô!". Insisti na abordagem.

 Não me lembro muito claramente do que aconteceu. A cumprimentei, eu acho. Ela deu um leve sorriso e eu comecei a defecar pela minha boca toda aquela diarreia verbal de xavequinho. Não lembro direito do que falei. Nesses momentos estamos tão nervosos e com medo de falar alguma merda que não paramos de pensar merda. Irônico né, bem filha da puta essa nossa mente. Então, com tanta turbulência mental, nosso cérebro acaba que se esquecendo de algo simples como gravar memórias, nos botando em um transe retardado.

 A conversa parecia fluir, e eu parecia agir normalmente. Mas sei que se eu visse minha cara, iria parecer um lunático que escapou das fossas de galáxias longínquas.

 Em certo momento, a interação começou a esfriar, e o gelo começou a se formar de novo. Aquela massa de indivíduos subdesenvolvidos também chamados de "alunos" gritavam mais alto do que a minha mente. A essa altura, ir correndo pra casa assistir pornografia parecia uma ideia razoavelmente aceitável. Até que o preto gordo gay chega.

 Qual era o problema desse preto gordo gay? Ele só tinha ela de amiga? Ele não tinha faltado?! Que nojo que eu senti. Pensa naquela pessoa que você acha extremamente ridícula e faria de tudo pra vê-la entrando em combustão sem ao menos saber um motivo específico. O preto gordo gay era essa pessoa. Não era porque ele era preto gordo gay. Talvez porque ele fosse gordo, mas... enfim. Ele se aproximou interrompendo meu diálogo morno com ela, sem ao menos olhar pra mim. "Depois eu converso com você", disse eu pra ela, acovardado pela presença daquela figura triplamente discriminada, saindo fora e encontrando outra turma por aquele rebanho de retardados.

 Nos próximo dias, me aproximei dela novamente, e a conversa fluiu como uma caganeira matinal (péssima comparação). Mas aquele estorvo cujas características eu já cansei de descrever estava junto.

 Dias se passaram, o suficiente para os professores já começarem a passar aqueles trabalhos cretinos de começo de ano. Ainda estava conquistando a confiança dela. Ela parecia perfeita. E ele, apesar de ainda nutrir uma falsa simpatia por mim, olhando nos meus olhos de vez em quando, talvez estivesse começando a me achar suportável.

 Decidi tomar uma decisão.

 Comecei a zoar o preto gordo gay. Um preto gordo gay sempre vai te dar motivos pra você zoá-lo. Sua obesidade já concede várias razões. Adicione a homossexualidade e afrodescendência dele com uma pitada de humor negro e homofobia sua, e pronto. "É verdade que você só gosta de banana grande?" e babaquices do tipo. Por que fiz isso? Porque em busca do que queremos, fazemos qualquer coisa. Inclusive coisas idiotas. E eu queria "impressionar" ela. Queria fazê-la rir, mostrar meu senso de humor.

 Não deu certo.

 Ela criou aversão total por mim, achava que eu era um racista homofóbico "gordofóbico" do caralho. Acabou se afastando de mim, e no final quem acabou tendo senso de humor e gostando de mim foi ele. Vai entender essa porra...

 Foi assim que nos conhecemos.

 Ahh, e quanto a ela? Ela parecia perfeita. Pensava que era porque eu ainda não a conhecia. E era por isso mesmo. Só parecia perfeita. Por que eu ainda estou comentando sobre ela? Não sei nem porque a inclui nessa história. Foda-se aquela frescurenta. Por que vocês acham que esse conto não se chama "A vadia mal humorada"? Porque eu tenho um amigo preto gordo gay, por isso.