01/09/2013

No final eles se pegam

 Esse não é um romance comum. Também não é lá muito incomum, mas o fato é que ele é diferente. Não é igual aquelas comédias românticas interpretadas por atores fracassados em Hollywood. Tampouco é igual a esses romances clichês e ridículos escritos pelo Nicholas Sparks ou por qualquer pseudo-escritor de qualquer época da literatura mundial.

 Isso não necessariamente implica, no entanto, que esse seja um romance bom. É apenas um romance sobre um homem e uma mulher. O que tem de diferente? Bem... é sobre um homem que se apaixona por uma mulher. Não é nada incomum, especialmente porque todo e qualquer escritor, cineasta ou romancista já teve essa ideia antes. Mas é diferente, mesmo que o final esteja entregando o final do romance... ou não. Será? Enfim, já enrolei muito justificando-me acerca da qualidade desse conto. Vamos á história:

 Pablo conheceu Fernanda no primeiro dia de aula. Foi por acaso que, durante em uma roda de conversas, você vai interagindo com todo mundo e nem ao menos nota que está conhecendo as pessoas. Foi tão espontâneo que Pablo só reparou na aparência física da Fernanda no dia seguinte. Do fundão, sentado em sua carteira, observava durante a explicação as nuances, os movimentos e os cabelos da Fernanda. Reparava sua fala, seus gestos, suas feições. Observava até mesmo sua personalidade. Apenas analisava, ao invés de ir papear com a garota. Nesses minuciosos exames, não estava nem ao menos remotamente interessado na aula.

 Ele sempre teve essa predileção por pessoas do sexo oposto com algo diferente. Com um estilo e uma atitude distintas, em que haja algo em que poucas pessoas percebem ou valorizam. Fernanda tinha isso. Parecia agressiva, e ao mesmo tempo doce; objetiva, determinada, e com um senso de humor único.

 Ao invés de ir lá puxar assunto com ela, o imbecil do Pablo ficava só analisando aquela figura mitológica que aos poucos iria dominando seus pensamentos. Ele conversou com ela no primeiro de aula, porém agora, de alguma forma, se sentia intimidado em se aproximar dela. Também não tinha muita paciência para ficar flertando com as garotas para conseguir algo só depois de dois meses, digamos. Ele ainda não sabia, mas estava ficando obsessivo por aquela moça, com uma fixação por Fernanda.

 Cabaço como só ele sabia ser, passaram-se semanas e Fernanda ainda continuava sendo apenas um objeto no campo de observação de Pablo. Ele, por sua vez, apenas imaginava o que falar pra ela, sem nunca concretizar esses diálogos fictícios mentais. Toda vez que dava bom dia para ela, ele não obtinha resposta. Ela apenas dava um sorriso que se desmanchava rapidamente. Isso devia ser um sinal de charme, pensava Pablo. Devia ser uma brecha para ele ir lá falar com ela.

 Convicto de suas chances, entre a troca de professores, Pablo se aproximou de sua carteira. Sentou-se ao lado dela. Soltou um sonoro "oi". Fernanda recuou e, hostilmente, replicou o cumprimento. Com um sorriso estúpido estampado na sua face, Pablo puxou um assunto de forma superficial, da qual apenas causou repulsa em Fernanda. Nenhuma amizade, conexão ou flerte fora estabelecido ali, apenas uma troca de palavras e uma tentativa falha de Pablo se aproximar dela.

 E assim Pablo continuou, por dias, tentando estabelecer algo com Fernanda. O único que conseguia, no entanto, com toda a propriedade, era cada vez a repulsa e o desprezo dela por ele. Pablo era um merda aos olhos de Fernanda. Como ela era uma boa moça, era sempre paciente quando ele ia papear com ela. No entanto, ultimamente Fernanda estava irritada, em sua tensão pré-menstrual, com problemas familiares, preocupadas com suas notas e, além de tudo, com os cabelos desidratados. Foi no auge dessa apoquentação que Pablo finalmente botara as cartas na mesa.

 "To afim de você"

 Fernanda arqueou uma de suas sobrancelhas e, impaciente, embora tentando desenterrar um pouco de compaixão de sua ira interior, o rejeitou com uma dose de simpatia.

 "Qual o problema? Por que não me dá uma chance?"

 "Porque eu não gosto de você, Pablo! Você é chato!" explodindo em sua fúria, agora totalmente justificável, continuou: "E mesmo que eu gostasse, eu não ficaria com você"

 "Você namora? Por que nunca me disse?" disse Pablo, levantando a voz, aparentemente não aceitando a rejeição.

 "Eu sou lésbica, Pablo, agora larga do meu pé!"

 "Beleza então, sua lésbica vadia do caralho..."

 E antes que desse meia volta, a ira demoníaca interior de Fernanda atacou o caráter sujo e cuzão de Pablo, chocando contra seus punhos fechados o rosto dele, finalizando essa infeliz história pseudo-amorosa, fruto de um romance falho entre um imbecil com falta de honra nos culhões e uma lésbica que não leva desaforo. Como o título do romance não mente, no final eles acabaram se pegando... no soco.

 O fato é que a intuição de Pablo não estava errada. Ela tinha algo de diferente. Era lésbica. No entanto, no final eles acabaram se pegando. Infelizmente não da maneira como ele gostaria... esse é um romance diferente, no entanto. Não necessariamente bom, como eu alertei no segundo parágrafo, mas ainda sim é melhor do qualquer livro do Nicholas Sparks.