10/08/2013

A Estrada Paralela


  Em vales íngremes e obscuros, matagais desconhecidos e intermináveis, o céu estrelado e os ecos de motores, a adrenalina pulsa por quem trilha pela estrada Minkowski - também conhecida como Estrada Paralela -, que ora serpenteia, ora segue em direção retilínea. Saxon ensurdecedor no volume do automóvel. O clássico álbum "Wheels Of Steel" tocando no amado Impala 65 preto de Léo. Ou "Jota-Jota", como gostava que o chamassem. Um jovem aventureiro, solteiro, reservado, de um topete preto e liso, admirador de carros antigos e de família estável economicamente. Concluíra os estudos há alguns anos, agora fazia serviços para o pai.

 "She's got wheels, wheels of steel
 She's got wheels of steel
 Wheels of steel"

 J.J. botara o pé na estrada há dois dias, até chegar na rota Minkowski. Estava ansioso, planejara isso por certo tempo. Acordara antes do amanhecer em uma pousada que se hospedou no dia anterior, para traçar por toda a Estrada Paralela antes do anoitecer. Não achara a Estrada Minkowski nos mapas, portanto contou com a sorte, pedindo ajuda a estranhos. Os pássaros ainda cantavam quando ele se deu conta de estar na Minkowski, e por ela prosseguiu. Passou a notar a forma como a estrada se revelava pra ele. Por quilômetros e quilômetros, sem postos de gasolina, casas isoladas, acostamento, pousadas e nem orelhões. Sem fazendas pelas redondezas ou postes de iluminação. Muito menos carros que a trafegam. Ela apenas está ali, asfaltada, inerte e sem uso, em meio ás paisagens naturais não destruídas pelo homem, apenas para J.J. Isso porque ninguém quis aceitar ir com ele. Estranhamente, quando ele lhes contava do seu plano de "viajar pela Estrada Paralela", as pessoas imediatamente recusavam o convite. Parecia que, no fim das contas, ela fora construída apenas para ele. Apenas J.J. e ele, junto com sua liberdade, seu compartimento de cerveja no banco de passageiro, sua jaqueta de couro, seus óculos escuros e seu sorriso espontâneo, proporcionado pela aventura de rodar por estradas longínquas. Ele sentia-se ótimo, em um grande estado de paz mental. 

 Com o vento cantando, o ponteiro do velocímetro na casa dos 60, seu ombro apoiado na porta, e sua lata de cerveja no compartimento do carro - entre seu banco e o do passageiro, sua jornada prosseguia sem maiores preocupações. Começou a lembrar de todos os prévios avisos de amigos seus, motociclistas de sangue, alertando-o dos perigos de dirigir por essa estrada. "Não tem iluminação, cara, e por quilômetros é só a estrada, e mais estrada, e mais estrada. Não tem desvios, não tem acostamento, nada", assim diziam os que supostamente por lá já trafegavam. Afirmavam que muitos motoristas que já usaram a rota Minkowski como via para chegar ao objetivo, de poucos se voltou a ter notícia por ser muito perigosa e traiçoeira, devido a suas curvas inesperadas. J.J escutou atentamente, mas nos pensamentos concluíra que aquilo devia ser um monte de merda. Parece que só queriam botar negatividade na sua jornada, e mesmo assim deu início á sua migração, sem qualquer pessimismo.

 E começou, observando e absorvendo o ambiente e o clima daquela estrada onde se encontrara, a emergir dentro dele, uma inquietude estranha. A energia daquela Estrada o fez, subitamente, a sentir-se estranho enquanto rodava por ela. Como um demônio que, por alguns segundos, inesperadamente tomou posse de sua mente. Identificando essa estranha sensação, imediatamente tentou esquecê-la e espremê-la para fora como uma espinha.

 Prosseguiu em sua viagem, no seu belo e conservado Impala 1965, da qual ele tanto amara e se devotava a maior parte do tempo. J.J. nunca dera tanta sorte nos relacionamentos amorosos, e mulheres sempre fora um assunto um tanto complicado para ele, embora ele fosse atraente e charmoso ao olho das garotas. No entanto isso não era o fator para sua devoção constante aos veículos e em especial ao seu Impala. Era puramente uma paixão natural. J.J. era casado com ele, e morreria por aquele carro, se preciso. Era seu cachorro, seu melhor amigo, sua namorada e sua esposa. Pegando mais uma cerveja no baú, J.J apreciava a música soava, e sua trilha sob quatro rodas alimentava um sentimento de maior grandeza, de ter percorrido o mundo e explorado o que há de mais prazeroso na vida: golpear o ar com seu maior companheiro, seu maior amor e seu maior amigo.

  O que era pra ser libertador no entanto, estava pouco a pouco o consumindo de forma cancerígena por dentro, se tornando algo preocupante. Talvez era por estar sozinho, embora ele apreciasse o estado de solidão. Não era o carro, não era o clima, não eram problemas pessoais. Era a estrada. Se sentia um pouco angustiado por dirigir nessa rota. Era algo não muito lógico, mas ele tentava esquecer esse sentimento agonizante e desconfortável. "Ora, o que há de errado comigo?" pensava ele, tentando apreciar a jornada, com o suave ruído do atrito do pneu no asfalto enquanto ele dirigia. Há algo nela. Estava no ar, estava no asfalto. Enquanto navegava pela Minkowski, J.J. sentia como se apenas ele existisse na Terra, vagando sem rumo a lugar nenhum, como se estivesse mergulhando na vastidão do universo, sem nenhuma direção a tomar, perdido eternamente no vácuo infinito. E esse sentimento lhe golpeou o coração, dando-lhe uma profunda sensação de vazio e perdição. Nunca se sentira assim antes, mesmo apreciando tanto a sua própria companhia, mesmo sendo tão deliberadamente solitário.

 "I was born to rock´n´roll, everything I need
 I was born with the hammer down
 I was built for speed" - Motörhead



 Algumas horas se passaram desde que o Impala entrou na rota Minkowski. O céu parcialmente nublado, com o sol radiando á 60º graus em relação ao oeste, deixava a rua totalmente sombreada das árvores, que ocultavam parcialmente a estrela para J.J. A infinita floresta que rodeava a estrada por todos os lados, com folhas e galhos invadindo a faixa, aumentava ainda mais a sensação angustiante de aprisionamento em dirigir pela estrada. J.J.

 J.J. achara estranho, mas a estrada não parecia perigosa de maneira nenhuma. Tinha uma curva fechada aqui e um trecho perigoso ali, mas nada a ponto de causar acidentes automobilísticos. Talvez a ponto de elevar seriamente o subconsciente a níveis críticos de instabilidade. Porque J.J. e nenhum motorista provavelmente jamais trafegaram uma rota tão atormentadora. Um sentimento de não saber exatamente o que está sentindo, e se sentir ainda pior por isso. Uma aflição inexplicável que, em busca de tentar entendê-la, só aumenta ainda mais a agonia interna e a sensação de ter sido golpeado no peito.

 Ele passou com seu Impala por onde a estrada seguia retilínea, e as árvores seguiam um padrão de distância uma das outras. Certamente eram árvores de reflorestamento, mas J.J. estava certo que já tinha passado por ali antes. E seu estômago embrulhou. Tinha certeza que já tinha visto essas árvores, e a direção que a estrada tomava depois disso. Se sentiu sem ar, nervoso. Talvez estivesse tendo um deja-vu. Embora um pouco irracional, tinha certeza que não era apenas um lapso cerebral. Tentou apagar os pensamentos e retornar á serenidade, esquecendo de tudo isso por alguns momentos.

 "I'm burning down the freeway
 Doing ninety miles an hour
 I'm faster than a speedboat
 Pulling every inch of power" - Saxon


 O vocal de Biff Byford, o sol brilhante sob um céu parcialmente nublado e as sombras das folhas, o ronco do motor Impala 65 e seus ecos gravando seu traço pela estrada. Todos esses elementos o auxilariam a ficar com a mente mais relaxada e limpa. Recordou-se então, enquanto cantarolava junto com a faixa "Freeway Mad", de o porque chamarem-a de "Estrada Paralela".

 Alguns relatam que o termo provem do fato de quem viaja pela estrada Minkowski adentra um estado de grande purificação espiritual, como se fosse um nirvana ou o estado Zen. Onde o mundo cabe dentro da palma de sua mão, e você é o seu único guia rumo ao seu próprio destino: a felicidade eterna e a prosperidade. Essa sensação de que o universo é todo seu, e o seu único limite é a velocidade da luz. Você se sente em outro mundo, em uma realidade "paralela", diferente e maravilhosa. Mas não era exatamente o J.J. sentia. O que supostamente devia ser um traçado para preencher a aura da pessoa de bem estar e júbilo, estava se tornando uma dor de cabeça, com uma constante sensação de peso sobre os ombros. Ouvira falar que era uma estrada esquisita. Seus amigos talvez estivessem com razão, de certa maneira.

 Ele estava aflito, e a respiração seguia sempre pesada, com o coração mais veloz do que os pistões do motor. E então, subitamente, J.J. decidiu parar o carro. O Impala lentamente soou até restar apenas o barulho sereno de uma máquina parada no meio da faixa da estrada. Ele equilibrou a testa no volante, respirando profundamente, cobriu o rosto com as mãos e olhou ao seu redor, pensativo. Já começara a achar que essa viagem fora um erro. Aventureiro, coisa da qual ele sempre fora, isso parecia deveras improvável. No entanto, qual a emoção de viajar se tudo o que isso te trará será inquietação e perturbação, sendo que você nem sabe o que está causando isso? Isso só podia ser psicológico. Era o motivo mais razoável. J.J. era um sujeito cético, portanto poderia haver um esclarecimento lógico.

 Em um turbilhão de pensamentos, J.J. ouvira sons. Ruídos dos galhos, ruídos estranhos. Cogitou ser somente macacos ou qualquer animal selvagem, mas sentia-se desconfortável, como se estivesse sendo observado. Seus batimentos cardíacos lhe davam a sensação de estar tendo uma taquicardia. Sentiu estar em uma espécie de pesadelo, que só vai ficando mais assustador e quando mais queremos acordar, não acordamos. Os sons pararam, e tudo o que se ouvia agora eram ecos distantes, como sons provenientes de uma cidade grande na madrugada. Era um barulho elétrico, arrepiante, como se viesse de uma civilização longínqua, direto da fronteira do oceano cósmico. O motor estava desligado. J.J. só pensava em ligá-lo, fazer o retorno e voltar para casa. Seria tão simples, no entanto viria a parte difícil: voltar. Há quanto tempo ele estava na estrada? Cinco, seis horas? Passar todo esse tempo torturante novamente só pra retornar? No fundo, não valia a pena. Ainda chutava em seus instintos a decisão de que, se essa viagem já começara, ela teria que ser prosseguida até o fim.

 J.J. então, enquanto preenchia seus pulmões antes de dar um forte suspiro, ligou o Impala e prosseguiu seu trajeto.

 "Fast and furious 
 We ride the universe
 To carve a road for us 
 That slices every curve in sight" - Judas Priest

 Já era fim de tarde, e a estrada não parecia acabar nunca, e nunca se via nada além de estrada e floresta. Nem ao menos outros carros. Ela não cessava de ser agonizante a cada curva, e J.J. ainda tentava regozijar cada gota de gasolina queimada durante o percurso, mas seu pessimismo já o tinha dominado por completo. Wheels Of Steel já tinha terminado de tocar e ele decidiu botar na rádio de rock, mas só se ouvia estática. Afinal, olha onde ele estava...

 Horas cruzava por ela no seu magnífico calhambeque preto da década de 60. Estava esgotado e esfomeado. As árvores se abraçavam por cima da rua e a natureza inóspita parecia infinita. Não havia lanchonetes, e ele só tivera sua refeição de manhã, antes de sair da pousada e continuar a jornada. Não tinha comprado nada para comer durante o trajeto. Nem lhe ocorreu a ideia. Seu único estoque eram suas garrafas de cerveja, da qual a maioria estava vazia. "Rota inacabável que não tem porra nenhuma!". Essa maldita estrada. Por que ela é tão bizarra e intimidadora? Tudo parecia diferente nela, como se fosse de outro planeta. A ideia de atravessá-la agora parecia mais infernal do que nunca.  Mas parecia haver uma explicação racional, pelo o menos para J.J.

 Determinado a melhorar um pouco o seu ânimo, optou procurar por algum álbum em seu porta-luvas e acabou por achar Fire Of Unknown Origin do Blue Öyster Cult. Remexeu mais algumas capas, passou por Mercyful Fate, Grave Digger e Accept, só que decidira escutar os que ele não ouvia há algum tempo. Selecionou então, de sua coleção musical, Street Lethal de uma banda chamada Racer X e botou no seu rádio.

 A música não parecia resolver seus problemas. Não obstante, o Impala decide morrer, em plena velocidade (algo entre 60 e 70km/h), logo antes de uma subida consideravelmente íngreme. J.J. se enfurece por dentro, mas por fora continua sereno, deslizando a mão pelo rosto repetidas vezes, como um de seus maneirismos. Sentira vontade de golpear o volante ou xingar o automóvel, mas seu amor por essa maravilha da Chevrolet era deveras imensa para ele ofendê-la. Imóvel em plena faixa, J.J. fica parado, com as mãos sob o volante, como se estivesse sob um transe filosófico. "O que tá acontecendo?", pensava ele. "Deve ser coisa da minha cabeça, não é possível. Acho que bebi muita cerveja, e além disso estou cansado e com fome. Preciso dormir."

 Ele gira a chave de ignição. Sua travessia na rota Minkowski parece condenada. Aproveitando a situação, descera do automóvel para urinar nos arbustos. De costas para a estrada, os ruídos dos galhos retornam por alguns segundos, fazendo J.J. ficar atento como um cão. Subitamente, como uma manifestação fantasmagórica, um misterioso carro robusto e totalmente preto (inclusive nos vidros) cruzou por ele na faixa contrária, a uma velocidade imperceptível aos olhos humanos. Apenas um vulto, sem nenhum eco de um motor se aproximando. J.J. se virou e ficou olhando para a direção da qual o carro havia seguido. Foi até o meio da estrada, pisou no meio da faixa amarela e tirou os óculos escuros, perplexo. Estava disposto a não acreditar mais em nada do que via, ouvia ou sentia. Seus sensos de percepção deviam estar alterados, e tentou aceitar o fato que estava em um estado de plena insanidade. No entanto, sabia que isso era vívido, que se encontrava em plena lucidez, ou pelo o menos aparentava.

 Subiu a cabeça em direção ao céu, fechando os olhos e abrindo a boca, esticando o corpo, dando um profundo suspiro para relaxar sua vértebra cervical. Quando abriu os olhos, ainda olhando para o alto, se deparou com um aterrorizante e profundamente macabro céu vermelho. Não era uma cor de fim de tarde, era uma vermelhidão infernal, do tom mais obscuro e infernal já possivelmente existente. Continha uma tonalidade proveniente de um planeta totalmente diferente, com ventos e fumaças avermelhadas, como que se originassem de explosões nucleares. Nuvens que mais pareciam gases radioativos de um campo de batalha, enquanto o clima e o ar, por um segundo, se assemelhavam a forças demoníacas de portais imensos do submundo. Essa visão não durou mais do que um segundo, o suficiente para acelerar o coração de J.J., quase deixar seus óculos escuros cair de suas mãos e espantá-lo até a base da sua lombar

 Decidiu voltar para dentro do carro com pressa, atormentado. Tentou fazê-lo ligar novamente. O Impala gemia, rosnava, mas não correspondia. Estava desesperado.

 Começou a se perguntar, enquanto tentava mais uma vez dar partida ao Impala e respirava pesadamente: "por que está tudo tão estranho? O que foi aquele carro? O que foi aquele céu vermelho?" Tentou mais uma vez. Nada. "Tem que haver uma explicação". Era como se fosse uma energia de atração, algo metafísico. Tentou de novo. Nada. Sentia que, de alguma forma banal, seu vasto amor pelo carro não estava sendo recíproco. J.J. botara o pé na estrada com tanto entusiasmo, e agora se sentia tão agonizado. De novo. Nada. Checou o marcador de combustível. Ainda tinha o suficiente. Tentou de novo. O motor rosnou e o carro ressuscitou. "Não sei o que é, mas deve haver alguma resposta pra isso".

 J.J. prosseguiu viagem, escalando a subida da estrada. Já estava escurecendo, o suficiente para que os faróis precisassem ser usados, e a brisa já percorria veloz e gelada, e a aflição interior na mente desconfiada de J.J se escurecia cada vez mais, assim como o dia.

 "Moving down the back streets
 Pass the speed of light
 Sparks burn inside me
 Gas and air adjusted right
 Needle's in the red
 I'm blowing away on the edge" - Racer X

 No enegrecer do dia, onde o céu divide-se entre um breve alaranjado no horizonte e uma tempestade de escuridão, J.J. e seu Impala eram apenas um carro de autorama. Onde as estrelas estão apenas começando a cintilar seus brilhos, ele dirige por uma estrada sem qualquer objetivo, sem qualquer opção, a não ser continuar nela até que acabe. Talvez o problema seria ele mesmo, com todo essa chuva de pensamentos, tentando culpar algo ou alguém, como se a estrada estivesse viva ou ele estivesse sendo observado. Repentinamente, concluiu que aquilo só poderiam ser avisos intuitivos de um prefácio. E ele estava dirigindo até ele. Sem quaisquer meios de evitar o inevitável. Quando, no meio de tudo isso, o céu vermelho se revelou de novo, como um rápido flash alucinógeno. J.J. piscou os olhos repetidas vezes rapidamente, em espanto.

 Ele permanecia concentrado na direção, enquanto sua alma gritava por dentro. As curvas serpenteadas na penumbra, as árvores negras e seus ruídos amedrontadores de selva, o céu preto e estrelado que se revelava por entre os arbustos, e a apavorante solidão. J.J. tentou esboçar um sorriso de desdém a si mesmo, como forma de convencer que estava apenas embriagado. Todavia, essa inquietude começara antes dele abrir sua primeira garrafa de cerveja. Então o que seriam os ruídos estranhos, o carro preto, o céu vermelho e esse péssimo pressentimento?

 J.J., em poucos minutos, enfrentaria outro problema: Seus pneus estavam desequilibrados. "Puta merda!" proclama ele, em tom de revolta, exorcizando alguns demônios que se acumulavam nele durante as últimas horas. "Sem comida, com sono, pneus desequilibrados, de noite", dizia em meio ao silêncio florestal de onde se localizava. Uma vez na sua cabeça repetia em tom sarcástico "Você está irremediavelmente fudido e na merda".

 Parou o Impala, que mancava devido ao salto dos pneus, como um burro em suas últimas. O possante de Jota-Jota parou. O painel de rotação foi progressivamente abaixando, os ruídos poderosos do motor se esvoaçando... Até o momento em que, sob o auge da noite, apenas restou o carro imóvel e dentro dele, J.J., junto com sua caixa de cerveja já apenas com poucas garrafas, gelo derretido e sua expressão, indistinguivelmente decepcionada. Como poderia ele dirigir assim? Os pneus estavam terrivelmente diferentes um do outro, fazendo a direção ser muito mais difícil, principalmente para um carro antigo como o dele.

 O que pareciam apenas impressões ou apenas conclusões precipitadas, agora eram definitivas: essa aventura foi um erro. O que mais poderia acontecer? Por que eu não peguei um calibrador de pneu? Esse era o menor dos problemas, no entanto.

 J.J. estava esgotado e sem esperanças que aquilo pudesse ter um final satisfatório. Desligou o rádio, fazendo que apenas os grilos e ruídos das folhas de galhos altos se chocando um contra os outros fossem audíveis. Aumentava a sensação de um vazio interior nele, e ele parecia se encontrar na borda do universo, parado com seu Impala, como se fosse uma espaçonave, no mais inóspito dos lugares. Os sons da selva que rodeavam a rota Minkowski estavam começando a se transformar em uma sonora orquestra diante da solidão de Jota-Jota, dentro de seu Impala que agora ligara o pisca-alerta. O coro dos animais começou a confundir-se com ecos que se aproximavam cada vez mais dos ouvidos de J.J., que mantem-se imóvel, atento ao que parecia chegar cada vez mais perto dele. Foi a partir deste momento que ele começou a ouvir vozes que soavam como "Volte", em coro, ecoando em sussurro e repetidas vezes. Ele prestou atenção, tentando entender o que aquilo estava dizendo.

 "Volte volte volte... Volte volte volte... Volte volte volte..."

 J.J. pensou ser apenas alguns animais grunhindo esse som que davam a impressão de estarem dizendo "volte". O coro então mudou para uma aguda "Ou se não", pronunciada lentamente, seguida de uma maquiavélica risada de desdém. Todos esses sons baixos eram detectadas por J.J. que, do seu carro, olhava para todos os seus lados, em total desespero e abandonando a ideia de que poderiam ser animais.

 "Estou delirando", pensava. Fome, sede, cansaço, noite. No meio da estrada, sem iluminação, sem postos, lanchonetes, placas ou pousadas, apenas cercado por uma vasta selva. Que sanidade poderia um individuo ter nessa condição? Que estrada era essa? Qual era seu destino, para onde ela levava? Parecia não haver objetivo aparente dela existir, como se fosse construída secretamente para algum lugar militar inacessível, ou como se fosse desenvolvida por povos desconhecidos da antiguidade com uma certa tecnologia avançada. O asfalto parecia perfeito, todavia, como se tivesse sido feito sua manutenção há muito, muito pouco tempo. 

 "A girl to drive, a car to love
 The music rocks me down the motorway
 My heart's got wings, we're taking off
 And I can't stop this flight of speed today" - Scorpions

 Os longínquos ecos aparentemente pararam de ressoar nas orelhas de J.J., fazendo-o pensar que talvez ele estivesse tendo uma alucinação temporária. Antes de recuperar totalmente o raciocínio, porém, o ruído voltara com força, muito mais forte, mais aparentemente próximo e, principalmente, mais alto. J.J. fechou os olhos e tapou com as mãos as orelhas e, em total pânico, gritou. Um sonoro "parem!", não sabendo exatamente ao que se referia ou a quem. Seu ceticismo crítico ao poucos se extinguia. Suspirou, olhou para os lados e, no momento em que arregalou os olhos, deparou estar parado no mesmo lugar que suspeitava já ter passado, mas agora de noite. Onde as árvores seguiam um padrão de distância uma das outras... árvores de reflorestamento. E o deja-vu voltou, muito mais forte e confuso, causando um pane cerebral em Jota-Jota, que se enegreceu tanto quanto a solidão obscura que ele e seu automóvel se encontravam.

 Ao longe, ele avistou um par de luzes se aproximando. Era o carro preto novamente. Ou talvez outro, porque dessa vez era possível ouvir seu motor. O carro preto se aproximou da estrada, do longe, em uma linha retilínea, até chegar próximo do Impala. Antes que J.J. pudesse saltar de seu carro para pedir ao carro que parasse, o veículo avançou diante da faixa contrária, como um foguete diante do Impala.
 "Eeeeeeii!" gritou J.J., enquanto as luzes vermelhas da traseira se distanciavam. "Merda!".

 Permaneceu de pé sob o asfalto por mais alguns segundos, de forma a pensar e tentar se acalmar. Fora urinar novamente e então retornara ao carro. Ligou seus faróis e, disposto a continuar com essa pavorosa experiência na travessia da Rota Minkowski, girou a chave na ignição. O carro tentou, mas não viveu. O motor parecia afogado. "Mas que merda..." tentou novamente e, ao olhar atentamente para o painel, o marcador de combustível estava absolutamente vazio. J.J. se enfureceu. "Porra, como isso é possível!? Eu tinha gasolina o suficiente até agora!"

"I would go downtown
Buy a Mercury or two
Cause i'm crazy about a Mercury
Cruise up and down this road" - Steve Miller Band


Como um passageiro de olhos fechados em um carro em movimento, cuja sensação é de estar totalmente desorientado de sua localização e do ambiente que o rodeia, J.J. sentia exatamente isso. De olhos fechados, com a cabeça inclinada para cima, em total remorso e desistência de qualquer chance que acarrete em um final satisfatório, J.J. sai do carro.

  "Volte volte volte... Volte volte volte... Volte volte volte..."

 Os ruídos entendíveis como "volte" retornavam, cessavam e voltavam novamente, como um coro perfeitamente sincronizado. O ambiente inóspito dava a sensação de J.J. estar flutuando sozinho em uma galáxia pairante no universo, onde os sóis brilham sem planetas para a orbitarem, onde os planetas orbitam sem vida para lhes habitar, e a vida perece, sem condições de viver. 

   "Volte volte volte... Volte volte volte... Volte volte volte..."

 Por que aqueles carros estavam passando? De onde eles vieram e por que eles não voltaram para ajudá-lo? J.J. não sabia mais no que pensar ou no que deixar de pensar, e nem como pensar. Estava perdido. Um manicômio seria um lugar mais seguro e feliz para ele naquele momento. Os zumbidos, em um crescente volume, começaram a transformar-se aos poucos, em um ruído que parecia proveniente das profundidades de algum lugar infernal. J.J. observava, embasbacado, aqueles sons se tornarem pouco a pouco em risos malignos. O horizonte estava distante, e o trecho da rua retilínea, sem iluminação no meio da noite devido a ausência de postes, desaparecia na linha das fronteiras entre a Terra e o céu estrelado.

 Onde as árvores de reflorestamento pouco a pouco se tornavam um campo amaldiçoado, J.J. começou a sentir um leve tremor logo abaixo de seus pés. Seu tênis balançava e desequilibrava a sua perna com cada vez mais força, e aquele asfalto que outrora parecia perfeito, agora estava rachando e criando linhas desuniformes por toda a estrada ao longe, aos poucos alcançando a posição onde ele se encontrava. Sem titubear, apressadamente ele adentrou seu Impala sem qualquer gota de gasolina no tanque ou equilíbrio dos pneus, tentando desesperadamente ligá-lo para retornar para casa. Um terremoto abalava as terras onde ele se encontrava e isso não parecia ser proveniente da natureza ou de algum efeito natural. Era algo maligno que estava agindo por trás de tudo e J.J. sabia disso.

 Girando repetidas vezes a chave na ignição em movimentos rápidos, as ruas rachavam como o solo de um deserto banhado em raios solares por tempo permanente. A Estrada Paralela estava tremendo com um forte abalo sísmico de forças demoníacas. O tremor cessara por alguns instantes e os barulhos de rachaduras pareciam haver extinguindo-se quando chegaram próximos de J.J. e seu Impala 65. A terra pouco a pouco foi voltando a um estado imóvel, após os abalos pararem. Psicologicamente, J.J. parecia impossível de se descrever. Ele não se sentia mais um ser humano em estado de lucidez, nem sabia o que se passava, só queria sair daquela situação. Seu peito apertava-se cada vez mais diante dessa amarga aventura. Em meio á escuridão da madrugada, ligou seus faróis dianteiros para tentar avistar o que poderia ser, e se estaria perto ou longe. Todavia, de nada adiantou. Nem ao menos a fraca iluminação das estrelas que entravam de modo sorrateiro por dentro as altas árvores de reflorestamento seriam suficientes.

 J.J. abriu a porta e voltou a pisar no asfalto, convencido que ele jamais tornaria a ligar enquanto ele não conseguisse combustível. Sua visibilidade estava limitada ao que os faróis de seu automóvel iluminavam, além da pequena luz proveniente dos corpos celestes logo acima. J.J. foi lentamente caminhando em frente ao seu carro, observando as fortes fendas no asfalto que agora parecia impossível de se trafegar. Mentalmente anestesiado de tantos acontecimentos logicamente inexplicáveis para J.J., ele apenas seguia seus instintos sem pestanejar. Se tivesse que chorar, choraria. Se tivesse que correr, correria. E era exatamente isso que ele deveria fazer a partir daquele instante, pois a breve e lenta caminhada que dera em frente ao seu carro já fora suficiente para se deparar do iminente perigo em que se encontrava. A enorme cratera que dera lugar ao que antes ali havia uma estrada, fez quase J.J. cair para sua morte. Não a havia visto, e nem dava para vê-la. O único que se podia saber é que ali não havia mais asfalto e sim uma enorme cratera, uma estrada que cedeu. Não se sabia a profundidade, largura e nem comprimento desse abismo. J.J. recuou alguns metros pra trás, em choque. 

 Não conseguiu muitos segundos, no entanto, para poder recuperar o fôlego e a consciência. Ao longe, na linha do horizonte, chegava ao seus ouvidos a audição de um barulho forte, como ondas do mar chocando-se violentamente. Mas era pior, aterrorizador. O som foi aumentando e, como a base de um baixo em uma música, os ruídos das risadas malignas foram acompanhando o volume do terror auditivo. O ouvido de J.J. já doía, e ele começara a correr. Pensou em entrar no carro e tentar ligá-lo a qualquer custo, no entanto seria em vão. Apenas abriu a porta e soltou seu freio de mão para então empurrar sua caranga até uma zona segura, de qualquer maneira. Fez isso rapidamente e se dirigiu até a dianteira, onde os faróis continuavam ligados e o tremor continuava perturbador e as risadas continuavam rindo, de maneira descontrolável. Em situações de desamparo e pânico, onde medidas físicas devem ser tomadas, consegue-se a força necessária de uma maneira admirável. E assim, embora aquele Impala fosse extremamente pesado, conseguiu ser movido alguns centímetros por J.J. Essa medida, portanto, foi ineficientemente fútil.

 A cratera já cedia logo abaixo dos pés de J.J., que tentava salvar tanto a si mesmo como seu próprio amado Impala. A estrada desfazia-se, sendo sugada como se estivesse ali um buraco negro. J.J. tropeçou, segurando-se á grade do Impala, equilibrando-se enquanto a rua continuava sendo devorada pelo abismo dos tremores demoníacos e as risadas maquiavélicas. Não havia mais espaço para ele permanecer em pé, então a única solução foi subir por cima do capô do carro, escalar pelo seu teto e cair na rua rachada porém ainda intacta logo atrás da traseira do carro.

 Quando pulou do carro para o asfalto, olhou para trás e começou a correr, enquanto testemunhou aquele que o salvou sendo engolido pelas chamas obscuras das trevas. Seu próprio carro, o seu único e maior companheiro, sendo eternamente destinado ás flamas do demônio, aquela força que desfazia a Estrada Paralela. Se seus instintos o mandassem correr, ele correria. Se o mandassem chorar, ele choraria. Agora ele corria e chorava. Corria para se salvar, e chorava não só porque acabara de perder o que era para ele como seu melhor amigo, seu animal de estimação, mas como descarga de toda a sua agonia emocional que viera presenciando desde o começo do dia, desde antes mesmo de abrir sua primeira garrafa de cerveja no compartimento posicionado no banco do passageiro... no banco do passageiro que agora estava enterrado no subsolo, que agora pertencia á cratera.

 "I'm in love with my car
 Gotta feel for my automobile
 Get a grip on my boy racer rollbar
 Such a thrill when your radials squeal" - Queen


 Os tremores cessaram, as risadas agora pararam e, como na quebra de um feitiço, tudo parecia estar e ser normal. Tudo parecia ser sereno e belo. J.J. parou de correr, olhou para trás, mas não conseguia ver quase nada, exceto a claridade do céu sob a noite escura. Exceto o estranho fato de que, diante de todo aquele tremor, as árvores continuaram imóveis, e todo o chão ao redor deles não cedeu. Apenas a estrada cedeu, apenas o que era o asfalto deu lugar á um buraco gigante. 

 Agora J.J. apenas caminhava, perdido em seus pensamentos, pensando no que faria. Estava preparando para se entregar a morte. Sua alma estava a venda, e o preço era zero. Era só pegar e levar. Não demorou muitos segundos para um dos elementos de seu tormento retornar. O carro preto... agora estava análogo á J.J. Ele sentiu um forte arrepio na espinha e sua respiração pesada retornou. O pesadelo parecia não acabar nunca, e ele apenas ficou imóvel. O vidro abaixou, e um senhor na casa dos 50 anos, sorridente e com consideráveis marcas de expressão e rugas na testa, de roupas modestas franzino, tinha um ar de simpatia e atenciosidade, talvez apenas para causar uma boa impressão inicial. O carro preto era, afinal, um Cougar 1968, bem conservado e limpo, assim como o perecido Impala. Dirigiu-se á J.J:

  - Você está sozinho, filho?
 - Sim... quer dizer, agora sim. Meu melhor amigo foi engolido pela cratera que engoliu a estrada depois de ter me salvado.
 - Eu sinto muito por isso... onde está seu carro?
 - O carro que era meu melhor amigo.
 O velho assentiu, sensibilizado e ao mesmo tempo achando um certo toque tragicômico na situação.
 - Qual o seu nome, filho?
 - Me chame de Jota-Jota.
 - OK, Jota-Jota...
 J.J. o interrompeu:
 - Olha, desculpa estar sendo tão direto, mas me diga que porra que está acontecendo nessa merda, por favor... - disse J.J., querendo parecer calmo e sereno, sem nenhuma esperança de receber uma resposta satisfatória ou confortadora, do tipo "você só está sonhando".
 - Filho... você sabe a origem do nome "Estrada Paralela"?
 - Acho que é porque você entra numa espécie de terra dos sonhos, um mundo maravilhoso... uma realidade "paralela".
 O velho, calado e olhando para J.J. atencioso, já dera entender que a resposta não era nem remotamente essa.
 - O que você viu ao seu redor, filho? Você sabe o que viu... coisas que não eram desse mundo. Não eram desse universo. Onde o metafísico e o sobrenatural existem, onde o místico e o mitológico são reais.
 - O que você está querendo dizer?
 - A rota Minkowski é a conexão entre o que existe no nosso mundo e nos outros mundos... É o portal entre diferentes universos e realidades paralelas. Por isso essa rota é conhecida como "Estrada Paralela", filho.
 J.J. escutou e absorveu tudo aquilo atentamente, embora não soubesse o que falar, nem o que pensar. Era tudo tão surreal. Seu carro se fora, sua sanidade estava em perigo e ele não sabia no que confiar: no seu ceticismo ou nas palavras do velho. Não depois de tudo o que presenciou.
 - Você quer saber toda a verdade? Toda ela? - disse o motorista do Cougar.
 - Eu só quero ir embora pra casa.
 - Então entre. Você estará seguro comigo. Eu te explico tudo depois que sairmos dessa ponte para o inferno...

 J.J. entrou e se apoiou na janela, pensativo e finalmente ciente de que estaria a salvo. Não mais se interessava pelas respostas ou por hipóteses explicativas. O céu vermelho, as vozes, o terremoto, a estrada rachando e cedendo, a estranha energia e sensação de solidão, a gasolina misteriosamente secando do tanque... Estava tão desinteressado e traumatizado com tudo após ter sobrevivido ao que passara ao longo desse dia que nem ao menos perguntara o nome do velho, nem ao menos se interessara em saber quem ele era e porque dera carona para ele, nem nada do tipo. Apenas queria nunca mais pensar ou passar por aquilo novamente. Apenas queria reencontrar a sua velha cama, e seu velho colchão. Se não fosse por seu Impala, ele já estaria sendo digerido pelas estranhas do abismo que engolia o que antes fora a Minkowski. Fora uma manobra atlética e desesperada, porém necessária. 

 Salvo pelo Impala... tal pensamento fora tão poético que ele entregou-se silenciosamente ás lágrimas novamente, enquanto fazia a interminável travessia de volta, da qual teria tempo o suficiente para chorar o quanto fosse necessário. Exterminaria a qualquer custo essa trágica experiência de sua mente, sem nunca esquecer de quem realmente deixará saudades e fará falta, de quem sacrificou-se para deixá-lo viver: o seu eterno e inesquecível Impala 1965.