12/10/2012

A maravilhosa infância nada tão especial


  Estava divagando nesse texto sobre saudosismo, o quanto a maioria dessa galera que não perde uma oportunidade de pagar de babaca relembrando fatos de uma vida que, afinal, nem foi tão boa assim. Leia-o, pois gostaria de continuar o assunto, falando da minha infância, já que é hoje é dia das crianças.

 Acrescentando com o que eu disse no texto em questão, não vejo problema em relembrar esses fatos, é sua própria vida, recordar belos momentos é sempre prazeroso. Mas com esses saudosistas imbecis é sempre a mesma coisa. Exaltando a maravilhosa infância que tiveram, relembrando de brinquedos, desenhos animados, filmes, brincadeiras, novelas, séries, o primeiro beijo, fatos da escola, doces que comiam. Como se a infância fosse algo mágico, livre de obrigações. Não é. E repare que todos que dizem "como era bom ser criança, não tinha nenhuma obrigação" são os mesmos que não conseguem ficar com menos de 3 DPs no final do semestre.

 E por que todo mundo precisa relembrar tanto assim a magia da infância e exaltá-la e falar que na época dela as coisas eram melhores? Se a infância e a época de todo mundo foi a melhor... alguém teve que ter tido a pior. Então, talvez seja apenas uma mentira pra apagar uma infância que não foi tão boa assim. Talvez sejam apenas adultos frustrados que não estão preparados para serem adultos. E além dessa pessoa ficar se iludindo relembrando falsas memórias de uma infância cretina, que necessidade é essa de reclamar da juventude atual? Não que eu tire a razão dela, mas como esse tivesse tido alguma moral.

 Talvez ela tenha se esquecido que mostrava o pipi pro colega debaixo da mesa na creche e que ficava com nojo quando alguma menina dava um beijo nele. Eu não esqueci. Até porque é verdade. Exceto que eu não fiquei com nojo, mas a menina nunca mais olhou pra minha cara.

 No entanto, pra eu estar falando isso, devo ter tido uma infância maravilhosa e superior a todos, não é verdade? Sim, é verdade. Ou seria, se eu fosse o filho de Odin, ou de algum deus nórdico ou sei lá.

Símbolo oficial da sua juventude estúpida

 A verdade é que eu era chato quando criança. Um pau no cu. Não gostava de Cavaleiros do Zodíaco, de Castelo Rá-Tim-Bum e nem de pintar as pessoas com canetas nos livros. Não gostava de Yu-Gi-Oh, Bleyblade e Pokemón, e também não achava graça quando a professora fazia menção á genitália feminina ou masculina. Não gostava de Os Padrinhos Mágicos, Kinder Ovo pra mim era supervalorizado e não achava graça nenhuma em parques temáticos. Nunca aprendi a empinar pipa e nunca vi graça em um pedaço de papel navegando contra o vento, e também nunca aprendi a fazer o carro do Batman com elástico. Nunca aprendi a fazer um monte de coisas, e ainda não sei até hoje.

 Nunca apanhei simplesmente porque meu pai queria. Ou seja, todas as vezes que eu levei uma boa surra tinha um motivo. Nunca trabalhei, nunca "sofri bullying", e mesmo que tivesse sofrido não me humilharia pra proclamar tal patética frase. Nunca sofri abuso sexual, nunca fui explorado, não recebi a melhor educação do mundo, mas também não nunca fui desrespeitado pela família.

 Foda-se a minha infância e a de todos que hoje ficam por aí discursando com saudosismo a maravilhosa infância que tiveram, só porque assistiam TV Colosso todos os dias enchendo o rabo de salgadinho, e que hoje ficam reclamando que não recebem aumento.

"Você não teve infância". Verdade, já nasci com 14 anos e pelos pubianos. Não tive infância porque nunca fiz determinada coisa é o mesmo que dizer que eu nunca tive um pênis porque nunca transei. Na verdade, quando eu tinha seis anos, fui explorado e servido de trabalho infantil pra fabricar tênis da Nike e apanhar diariamente do meu pai bêbado quando chegava em casa após 12 horas de serviço intenso, tudo isso porque eu nunca assisti Castelo Rá-Tim-Bum.

 Não digo isso porque tive uma infância frustrada, e que hoje sou um infeliz bastardo querendo descontar. Não tive uma infância ruim. De fato, tenho memórias de momentos muito bons, que ainda gosto de recordar ás vezes. Mas não viajei para galáxias distintas, atravessei dimensões paralelas em portais magnéticos e nem descobri uma nova forma de diagnosticar doenças cancerígenas com oito anos que revolucionou a ciência. Não fiz nada de tão extraordinário para ficar relembrando dela há todo instante. Não salvei milhares de pessoas sozinhos de uma enchente antes de ter chego a puberdade, pra me vangloriar de uma época que eu pensava que sexo gay era dois homens batendo o pinto no do outro.

 Enquanto alguns discursam sobre a duvidosa mágica infância que tiveram na Terra do Nunca, onde Peter Pan realizava orgias com a Alice do País das Maravilhas e os Três Porquinhos; eu prefiro encarar a triste realidade e aceitar o fato de que ela não foi tão mágica pra ser motivo de constante nostalgia e devoção.