29/08/2012

Merecemos o país que temos


 Pedro Álvares Cabral e seus companheiros desembarcam em terras que hoje denominamos República Federativa do Brasil. Com a nova descoberta, passam a explorar essa inédita área de mato e selva tupiniquim, dão porrada nuns Yanomami, um coça nas índia e, claro, roubam todos os recursos naturais desse vasto território nacional.

 Pouco tempo depois, a família real de Portugal vem pra cá, se fixa e aos poucos estabelecem os pele-vermelha como seus servos, ao mesmo tempo que aniquilam os que se opõem e escravizam os neguinhos - a maioria importado de suas terras natais, o continente da prosperidade.

 E é aí onde tudo se inicia. É onde a nossa cultura foi estabelecida, nossos comportamentos impregnados. A mente da população derretida, o típico jeitinho brasileiro estagnado. Se tem alguma informação importante omitida ou errônea, eu não sei, e nem me importo, mas a idéia central está bem clara.

 O Brasil é Brasil desde o começo. Esperança no começo, pizza no final. Opressão, ditadura, escravidão, censura. Todas esses acontecimentos nada mudaram o fato de que esse país nasceu e foi fundado para usar a população como marionete, onde o cu é costurado do maior tamanho possível pro pau de enrabação manipuladora dos que passam a perna entrar melhor.

 Somos bolinhas de gude, prontos para sermos manuseados. Não importa quantas décadas fomos enrabados, encurrados e adentrados ferozmente por dildos de titânio com 54 centímetros de diâmetro com pontas finas de aço, sempre seremos corpos flutuantes sem almas e cérebros em atividade, prontos para sermos usados para sugar os perus cobertos de dinheiro dos poderosos.

  E não me refiro só aos políticos. Políticos, empresários, executivos e advogados não são almas e forças superiores enviadas pelos cosmos para nos guiarmos e nos salvarmos. São pessoas comuns, que nem eu e você. A nossa cultura é assim. "Ofuscar o brilho do outro para que eu possa brilhar", "pisar em cima do outro para subir no pódio". Egoísmo, ganância, desonestidade, malandragem, desumildade. É o país onde um fode um o outro sem precedentes. Brasil nada mais é do que uma grande orgia anal infinita sem cuspidinha. Brasil é a favela da Terra.

 E nós merecemos isso. Cada vez mais eu constato de que merecemos o país que temos. Merecemos o congestionamento de 230 quilômetros, do ônibus e metrô sem conseguir andar com as portas fechadas, do aumento das taxas de banco, dos impostos abusivos nos alimentos e eletrodomésticos.

 Merecemos os preços altíssimos de automóveis, das enchentes e transbordamentos de rios, dos deslizamentos de terras, leis que criam cotas de 50% para alunos de escolas públicas, cotas para negros, criminalização do aborto, proibição da eutanásia. Merecemos o absolvimento dos réus do mensalão, de gente que passa a vida reclamando de problemas de infraestrutura, segurança e saúde, mas elege e reelege criminosos interessados apenas no poder político e aquisitivo. Merecemos o playboy de faculdade que discretamente foge do restaurante sem pagar a conta, de músicas e artistas como Gustavo Lima fazerem sucesso, da mulher dona de uma Mercedez que atravessa a rua ao ver um mendigo, do executivo que se recusa a dar 75 centavos pra um transeunte que está necessitando, do consumidor que recebe troco a mais por engano e não fala nada. Merecemos o amigo que te dá o tapinha nas costas enquanto rouba sua carteira. Merecemos cenas como a da foto acima desse post. Merecemos tudo isso e mais um pouco.

 Merecemos porque fazemos por merecer. Desde o começo apanhamos, levamos bronca e somos vítimas de abuso, e abaixamos a cabeça. Acordamos seis horas da manhã para sermos esmagados em um transporte público ineficiente, trafegando por ruas congestionadas, em uma cidade com falta de infraestrutura, em um estado manipulador com alta porcentagem de impostos, em um país burocrata com uma economia em constante ascensão e em estáveis e altíssimos níveis de desigualdade social. E voltamos pra casa pra assistir uma cena que se repete em toda novela, só que com personagens diferentes. Não saímos do sofá, do Facebook. Quem se importa em protestar? Marcha contra a corrupção? É inútil.

 Ao invés disso, o que fazemos? Vamos pro shopping. Assistimos o jogo do Corinthians, fazemos as mesmas piadas no bar do Seu Maurício, compramos um tênis de trezentos reais, mas não gastamos nem 50 em um livro. Dizemos "odeio política" e achamos que votar nulo muda alguma coisa. Continuamos olhando pra vitrine dos nossos próprios reflexos vazios, enquanto forças continuam agindo por nossas costas, mascarados por um sorriso quando te encontra cara a cara. Continuamos comentando sobre a novela, sobre reality shows, sobre a vizinha que perdeu a virgindade, sobre o mesmas observações do clima, as mesmas coisas sobre futilidade. 100% do tempo, apenas futilidade. Nos calamos, nos esquecemos, reclamamos mas atitudes não tomamos.

 Merecemos o país que temos, porque fazemos por merecer. Está impregnado na nossa cultura, no nosso comportamento, no nosso modo de raciocínio, na nossa personalidade, no senso comum.

 Alguns dizem que a solução do Brasil é uma revolução total, com protestos, greves e mortes. Outros defendem o liberalismo econômico, outros melhoras nos investimentos em educação, outros o socialismo ou o anarcocapitalismo. Eu defendo a idéia de um bombardeio de guerra nuclear apocalíptica ou uma catástrofe natural em massa - meteoros, por exemplo - que desintegre, aniquile, ferva, estraçalhe e vaporize toda a nossa camada intelectualmente subdesenvolvida de homo sapiens denominada pejorativamente de "brasileiro", e depois voltemos no tempo, mandamos os índios darem um pau no Cabral e deixarem os ingleses nos colonizarem.

 Talvez assim poderia ser diferente.