30/01/2011

A crônica do ônibus

 O ônibus chega. Aquela máquina criada com o objetivo de levar pessoas simultâneamente á lugares distintos ou, ao mesmo destino. Porém o objetivo é sempre igual. Todos estão movimentando o PIB do país, o comércio da nação, a renda do império, o salário do deputado... e precisam de algo para chegar lá. O tão requisitado transporte público.

 Você se dá conta de que ele está lá, pronto para te carregar até seu destino. Você sobe nele. E neste momento, se depara que o maior desafio daquele instante, é manter o equilíbrio da gravidade interior daquele amontoado de pessoas que evitam ao máximo olhar nos olhos uma das outras. E tenta, ao mesmo tempo em que tenta não pagar um mico, se desequilibrar e acabar caindo de cara nas genitais de alguma pessoa, você passa seu bilhete único. Com a esperança de que o motorista não passe por uma lombada ou freie de repente, só de sacanagem. Mas isso não é o mais difícil. Difícil mesmo é quando você não tem seu bilhete único. Ou quando ele está sem créditos.

 Eu realmente sinto lástima quando uma pessoa, além de enfrentar aquela dificuldade de manter o controle das próprias pernas sobre o ônibus, enfrenta a adrenalina de processar a contagem do dinheiro da passagem, moeda por moeda, e dá-la ao cobrador. E você recebe o troco. E novamente passa por esse desafio.


 Mas até agora você venceu todas as etapas. E o que você faz em seguida é passar pela catraca, enquanto observa rapidamente para todos os possíveis assentos vazios, evitando ao máximo entrar em contato de olho no olho com algum outro passageiro. A largada está dada. Você procura um assento supostamente vazio enquanto caminha pelo corredor. Você não achou? Ótimo, fique de pé. Sendo encoxado por alguém que não passou desodorante nas últimas semanas ou por algum sexualmente pervertido. Mas bom mesmo quando você tem a chance de encoxar uma mulher. Ou um homem mesmo, só de sacanagem.
Todavia, em outra situação, quando você realmente encontra aquele assento vazio, fixado como um tesouro enterrado, você tem outra tarefa á fazer: avaliar a pessoa sentado ao lado dele. Não tem ninguém? Maravilha, você sentará na janela e olhará pedestres imbecis olhando pra você. Tem alguém sentado na janela? OK. Vamos ás questões: É um homem, mulher ou viado? Gordo, magro, preto ou somente esquisito demais? Bonito, feio, charmoso ou tosco? Cheiroso, fedido ou cagado? Avalie-o completamente em 3 segundos, antes que alguém roube o seu lugar e você seja obrigado á aguentar suas varizes estourando daqui a alguns anos em resultado do desafio de equilibrar-se no balanço do ônibus.

Você tem duas opções: Sentar-se rapidamente no assento, ou escolher outras alternativas de bancos vazios, caso houverem, avaliando cada passageiro ao lado do mesmo como um ninja invisível. Mas aqui vai algumas dicas de quem você não pode sentar no ônibus.

 Não sente com velhas. Elas provavelmente olharão pra você e começar á elogiar o seu lindo cabelo ou o seu lindo sorriso, e contar histórias de quando elas ainda tinham os seios fixos no lugar. Ou simplesmente, no balanço do ônibus, seus seios que sofreram o efeito da gravidade durante os anos balançarão sobre você.

 Não sente com pretos. Eles provavelmente roubarão seu bilhete único sem você perceber. Não descarte essa hipótese se eles estiverem com uma camisa do Corinthians. Ou do Flamengo. Ou pior: eles podem estar escutando funk. E nada pior do ser obrigado á compartilhar os gritos histéricos e as batidas eletrônicas de uma música constrangedora. Seu único desejo, ao ser obrigado á escutar um funk do alto do celular de um neguinho safado que não respeito o gosto pessoal dos demais, é tomar um chá de sumiço.

 Não sente com gordos. Eles além de ocupar metade do seu assento, te farão ficar numa posição bem ridícula. Suarão em você, e provavelmente te esmagará ao tentar passar para sair na próxima parada. Mas caso ele vá sair na mesma parada em que você, pelo o menos você se garante de se levantar primeiro e ficar ás sua frente. Pois desse modo, caso o ônibus precise ser evacuado, ou pegue fogo, você estará á frente do gordinho, o que é uma vantagem e tanto! Você quebra o vidro rapidamente sem ter nenhum colosso á sua frente cujo é impossível ser ultrapassado.


 Não sente com pessoas da sua idade. Principalmente se você tiver menos de 18 anos e ele/ela for bonito o bastante para você se intimidar em sua presença. Vocês ficarão numa constrangedora tentativa de evitar trocar olhares o máximo possível.

 Por último, não sente, em hipótese alguma, com mães grávidas, com bebês recém nascidas ou projetos do capeta enviados á Terra recentemente. Mães grávidas podem ter a bolsa estourada do seu lado, e manchar seu tênis. Sua única reação seria espancar a infeliz. Bebês recém nascidos provavelmente estarão amamentando na mãe, e você quer desejar á todo custo não olhar para a teta da mãe. Há menos que ela seja gostosa. O pior mesmo é se ela estiver com a mais recente criação do demônio. Aquele protozoário do capeta, com apenas 5 anos, mas que consegue te despertar a mais furiosa alma do diabo em meio á uma macumba. Por isso, faça que nem eu: Assim que entrar um mini-anencéfalo no ônibus, ou você for obrigado á sentar do lado do bostinha, encare-o, aproxime seu rosto do dele, intimide-o, e diga: "Fique quieto ou morra". Uma alternativa é gritar histericamente e espancar o cobrador. Criança com menos de 7 anos que fala é o fim.

 O desafio está quase terminando. O ônibus chega no ponto final. Todos se levantam, e neste momento, todos observam um ao outro, todos tentam garantir o seu lugar, todos automaticamente garantem a sua estratégia de sobrevivência para a saída do veículo. O gordinho está bem á sua frente. Ele é o mais lento de todos. Todos os passageiros que estavam sentados atrás da porta de saída saem primeiro do que o gordo, fazendo com que você espere mais.

 O gordo finalmente saiu. Você também! Viva á liberdade. O ar fresco lhe garante bom estar com quem estava obrigado á compartilhar os odores das axilas de quem não fazia o uso frequente de desodorante, que estava sentado ao seu lado no assento.

 Você se dirige á estação de metrô, que é, inclusive, onde o ônibus faz sua última parada do percurso. Mais uma vez, você passa o bilhete único na catraca, espera por aquele amontoado de vagões carregados de mais passageiros. Ele chega. As portas se abrem. Todo o desafio se repete.